Perguntas e respostas sobre a Bíblia – 2 O judaísmo do tempo de Jesus, e posteriormente, estava cheio de usos errados dos princípios estabelecidos Antigo Testamento que acabavam por desvirtuar completamente o seu sentido original. Entre os muitos exemplos está o Sábado, dia sagrado para os judeus, que devia servir para descanso e meditação, mas acabou por ser transformado num pesadelo de regulamentos a estabelecer o que se pode fazer ou não pode fazer.
Com a preocupação de estabelecer o que era trabalho a evitar em dia de sábado, os mestres judeus criaram uma lista. Os trabalhos básicos são quarenta menos um: arar, semear, colher, fazer feixes, debulhar, joeirar e catar grãos; moer, peneirar, amassar e assar pão; cardar a lã, branquear, fiar e tecer; esticar dois fios de tecer, trançar dois fios, dar e desatar um nó, dar dois pontos, rasgar um tecido para dar dois pontos; caçar um veado, abatê-lo, tirar a pele, salgá-lo, curti-la, raspá-la, e cortá-la em pedaços; escrever duas letras; apagar o que está escrito para escrever duas letras; construir, demolir, apagar o fogo de um incêndio, atear fogo, bater com o martelo e levar uma coisa do lugar que está para outro. Estes são os trabalhos básicos, quarenta menos um. (Cf. Tratado Shabat 73). Inclusive, desde muito cedo os rabinos prescreveram a distância que se podia caminhar em dia de sábado. «Desceram, então, do monte chamado das Oliveiras, situado perto de Jerusalém, à distância de uma caminhada de sábado, e foram para Jerusalém» (Act 1,12). O grupo religioso que vivia junto ao Mar Morto, os essénios, proibia claramente que um homem tirasse duma cisterna ou fosso um animal que ali tivesse caído (Documento de Damasco, 11.13-14).
Ora, Jesus permitia que os seus discípulos, e ele mesmo, quebrassem estas normas que, para os mestres do seu tempo, eram olhadas como algo fundamental e o seu quebrar um pecado grave.
Jesus corrigiu este problema ao ensinar: «O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado» (Mc 2,27). Faz referência à criação e à intenção de Deus ao estabelecer a instituição do repouso sabático.
A própria ordem da criação indica que o homem era o alvo do benefício do repouso sabático. Contudo, o modo rabínico de interpretar a Antiga Aliança afastava-se da intenção original de Deus. O sábado, que era para ser um dom, um presente e um dia de refrigério, acabou por ser um dia de castigo, de opressão e de tensão devido à grande carga de mandamentos associados com ele e dos inúmeros preceitos reguladores. Esqueceram a função do sábado e ficaram apenas com a sua forma externa.
No seu ensino cheio de autoridade, confirmado pelas suas ações, Jesus dá a razão da sua interpretação: «O Filho do Homem é senhor também do sábado» (Mc 2,28).
Porém, ainda hoje, os judeus mais observantes seguem os mesmos princípios de há dois mil anos.
J. Franclim Pacheco
Espaço da responsabilidade do ISCRA – Instituto Superior
de Ciências Religiosas de Aveiro
