Gestos Simples

As notícias positivas escasseiam. As pessoas ou factos de referência, motivadores de atitudes e decisões construtivas, ficam quase sempre na sombra, não aparecem nas primeiras páginas, são tendenciosamente silenciados, como se constituíssem um perigo para a opinião pública, capaz de contagiar com otimismo e esperança. Foi uma destas notícias, aparecida discretamente num dos nossos jornais, que me levou a escrever estas linhas.

O atleta estava em posição de ganhar a prova de atletismo. Equivocado, ergueu os braços para festejar a chegada à meta. Mas, na verdade, ainda não era o lugar dos festejos: a linha final era bastante mais à frente.

Quem lhe seguia no encalço poderia ter aproveitado o equívoco, passado para a dianteira e ter colhido os louros de campeão. Assim não aconteceu. É que, em vez de beneficiar do engano do adversário, este concorrente estendeu o braço ao colega e fez-lhe saber que tinha de continuar, porque a meta era mais adiante. E, desse modo, o prémio acabou por ser mesmo para quem tinha lutado por ele, para quem o tinha merecido.

Mais curioso ainda é que, nas declarações prestadas, o homem que podia ter-se aproveitado da ocasião fez questão de frisar que o mérito deve ser para quem o alcança e não para os oportunistas, que jogam na “esperteza” e não no trabalho. Belo exemplo: deu uma brilhante lição e explicou a bem essa lição!

Há casos destes sem conta por esse mundo além. Passam no silêncio, perdem-se no ocultamento, quando deveriam ser evidenciados, a balizar os caminhos da educação, a ilustrar as propostas de atuação. Não são sensacionais! Não vendem! Não interessam!

É também edificante o caso daquele homem simples, que adquiriu um terreno e o pagou honradamente. Todavia, ao verificar que uma parcela do mesmo pertencia a alguém que ele conhecia, dirigiu-se-lhe para dizer que tomasse posse do que lhe pertencia. Embora tivesse feito pagamento de todo o terreno que comprara, descobriu que uma parte tinha outro dono. E “o seu a seu dono” foi a regra que imperou na sua consciência, apesar do prejuízo que isso lhe acarretava.

Bem sei que estas coisas não chegam aos ouvidos nem aos olhos dos grandes, dos homens públicos, dos decisores… É pena! Com a verdade, com a justiça, sem fintas desonestas de oportunismo e aproveitamento dos descuidos, dos deslises, do desconhecimento dos outros, é mais fácil o diálogo e concertação social, é mais viável e pacífica a partilha de sacrifícios, é possível o retomar da esperança, é certo o caminho de construção do futuro.

Sobra a esperança de que, de boca em boca, de consciência em consciência, vá passando esta mensagem, engrossando o ribeirinho da honradez e da verdade, que se torne rio caudaloso, a fertilizar as margens desta humanidade sedenta de transparência.