Que mensagem estamos a passar às nossas crianças? Que as árvores são tão descartáveis como qualquer objecto?

Carta ao Diretor Algumas proposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração

Os pássaros nascem na ponta das árvores

As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros

Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores

Os pássaros começam onde as árvores acabam

Os pássaros fazem cantar as árvores

Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se

deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal

Como pássaros poisam as folhas na terra

quando o Outono desce veladamente sobre os campos

Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores

mas deixo essa forma de dizer ao romancista

é complicada e não se dá bem na poesia

não foi ainda isolada da filosofia

Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros

Quem é que lá os pendura nos ramos?

De quem é a mão a inúmera mão?

Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo

Homem de palavra(s)

Muda-se-me o coração em tristeza e indignação ao ver o abate de árvores que ocorreu na Escola EB 1 da Vera Cruz. Como foi possível liquidar (de ânimo leve?) árvores com dezenas de anos de serviço à comunidade (por meio das suas sombras e pássaros e oxigénio e troncos para os miúdos se pendurarem)?

Imagino que terão sido ordens imponderadas da Câmara. Imagino que também às crianças e professores se lhes mude o coração ao ver apenas cepos onde ainda há dias havia árvores frondosas, cheias de histórias, risos e afectos que ligavam gerações – avós, pais e netos – que, sob as mesmas sombras, partilharam brincadeiras.

Não duvido de que houvesse algumas árvores na escola que colocassem em risco a segurança das crianças, mas não seriam, seguramente, tantas quantas as que foram irreversivelmente abatidas. Contei mais de 10 abatidas, das quais pelo menos 4 seriam árvores sãs, sem sinais de tronco podre ou oco e sem movimentação de terras na sua base que fizesse supor uma queda iminente. Que critérios foram considerados para decidir quais as árvores a abater? Terá havido, sequer, tempo suficiente para fazer uma avaliação técnica rigorosa ao estado das árvores? Decide-se abater irreversivelmente dezenas de anos de vida e história vegetal só com uma vista de olhos subjectiva e umas pancadinhas de guarda-chuva? É admissível que se aceitem argumentos do tipo “não há dinheiro para fazer uma avaliação às árvores, por isso, o melhor é cortar”? Que interesses se escondem por detrás deste abate indiscriminado, a pretexto de se estar a salvaguardar a segurança das crianças? Porque se abateram árvores que, objectivamente, não constituíam perigo? Quem vai ganhar com isto?

Seguramente que haverá nesta decisão muita imponderação, muita precipitação, muita insensibilidade, muito desrespeito pelas pessoas e pela natureza, por aquilo que é de todos. O que me indigna não é o facto de se abaterem árvores que colocam em risco a segurança das pessoas (embora houvesse outras alternativas ao abate, como “segurar” as árvores com tirantes de aço, por exemplo). O que me indigna é que, sob a capa desse pretexto, se aniquilem árvores só porque estão ali, mesmo que não constituam uma “ameaça” credível.

Que mensagem estamos a passar às nossas crianças? Que as árvores são tão descartáveis como qualquer objecto! Que a vida e a história do mundo vegetal não têm valor. Que um vendaval é pretexto legítimo para se proceder a uma razia de árvores. Que abater uma árvore é uma decisão que não precisa de observação cuidada e grande ponderação e que se pode tomar de ânimo leve.

Não é abatendo árvores que educamos as nossas crianças para um mundo mais sustentável. Aquilo a que os alunos da Escola EB 1 da Vera Cruz assistiram é uma poderosa oportunidade de aprendizagem, que tanto pode ser canalizada para veicular a ideia de que devemos cuidar e proteger as árvores, como pode (se nada for feito nesse sentido) ser negligenciada, veiculando a mensagem, absorvida “por osmose”, da legitimidade de se descartar as árvores a qualquer pretenso pretexto.

Julgo que seria de aproveitar esta lamentável situação para criar, com as nossas crianças, momentos de reflexão, para fomentar neles o espírito crítico e não a passividade e resignação perante atrocidades como esta. Como mãe, sugiro a outros pais, educadores e professores que se aproveite esta oportunidade para, por exemplo, explorar com as crianças obras de literatura infantil de grande valor pedagógico e humano, como A Árvore Generosa, de Shel Silverstein, que tem comovido gerações com a história de amor de uma árvore e um menino, e cuja mensagem se revela extremamente apropriada, neste momento, para as crianças da Escola da Vera Cruz. Sugiro ainda o belíssimo conto de Sophia, A Árvore. Uma lista sobre o tema “árvore” na literatura infantil está disponível no site Casa da Leitura, da Gulbenkian, em: http://195.23.38.178/casadaleitura/portalbeta/bo/documentos/t_a_arvore_na_LIJ_b.pdf. “Muitas destas obras retratam […] a essência generosa destes seres vivos com que estamos habituados a conviver, sublinhando a importância de aprender a cuidá-los e respeitá-los.”

Para que os pássaros possam continuar a nascer na ponta das árvores.

Joana Abranches Portela

Texto escrito conforme o antigo Acordo Ortográfico