A festa é contínua. Chegou o Verão; e, por toda a parte, quase dia e noite, somos envolvidos por barulhos de toa a ordem, desde acordes afinados – de folclore, filarmónicas… – a bandas de todo o tipo, com gosto e sem gosto, com valor e sem qualquer espécie de mérito.

Acontece que uma boa percentagem de toda esta poluição sonora se faz “em honra” de homens e mulheres ornados de santidade, em honra da própria Virgem Maria, e mesmo de Jesus Cristo ou do Espírito Santo.

“Em honra de” poderia bem substituir-se por “à conta de”, uma vez que, se não fosse a invocação religiosa, não se abririam as bolsas para custear tais loucuras. É requisitada como indispensável uma “bênção” do céu, para que resulte a organização destes eventos mundanos.

É certo – bem o sabemos – que a festa está no âmago das necessidades humanas. Mas esta ambiguidade é sinal de retrocesso, de retorno ao religioso pagão, característico da ignorância e da superstição.

Só a coragem profética de quem anuncie o Evangelho como libertador poderá purificar esta perversão. Estamos em tempo de proclamar corajosamente a verdade, em vez de nos acomodarmos a “arranjos” que geram falsas simpatias, porque baseadas na futilidade e na brejeirice sem nível.

Por outro lado, todos sentem que os dias vão maus para o governo quotidiano da vida, que “sobra mês” em vez de sobrar salário. Todavia, não se desenvolve um esforço educativo que dê prioridade ao essencial, que seleccione qualidade e elevação cultural, em vez de favorecer a multiplicação de protagonistas muito menos do que medíocres, que enchem as nossas praças e arraiais.

Que se separem as águas! A religiosidade popular tem valores, que podem ser fomentados pelas festas, com programas sóbrios e de nível. E os responsáveis pastorais têm como dever ajudar a descobrir e repor aquilo que dignifique e promova a pessoa integral. A alegria cristã não se confunde com toda esta infernal barulheira e promiscuidade.

E depois, porque tem sempre adeptos, quem quiser que promova o espectáculo despesista e fraudulento, alienante e banal. Não é nossa missão promover nem consentir tais perspectivas. O fermento tem de ser diferente da massa. Se não houver contraste de qualidade, como se perceberá a diferença?