A Árvore de Zaqueu DOMINGO XVIII do tempo comum – Ano C
A 1.ª leitura tornou célebre um provérbio, que ficou inalterado pelos séculos fora: «Vaidade das vaidades, tudo vaidade». «Vaidade das vaidades» é um superlativo: o conjunto da frase significaria «tudo neste mundo é fugaz e enganador». O termo «vaidade» segue o sentido primitivo do que é “perecedoiro, ilusório, vão, sem objectivo”… Estamos perante um autor desiludido, revoltado e por fim tristemente resignado perante a falta de sentido da vida. O impreciso termo hebraico Qohelet designa alguém relacionado com uma assembleia (como um mestre), que terá vivido 400 ou 300 anos antes de Cristo.
O vocabulário hebreu, para designar este mundo de aparências, de enganos e desenganos, de mentira e de ligeireza… tem pelo menos seis termos totalmente diferentes, consoante o sentido a vincar no contexto. Coelet usa sobretudo o termo hebel, cujo significado directo é suspiro, vapor, nulidade. A futilidade da vida lê-se em muitos livros da Bíblia. Porém, Coelet como que repisa as palavras do profeta Malaquias (3,14): «Que interesse pode haver em servir Deus, guardar os seus preceitos e não tirar o maior gozo possível da vida?» (Note-se que Coelet viveu numa época “morna”, como nós podemos viver, em que o poder e a riqueza estavam nas mãos de quem não tinha educação suficiente para governar).
Entre crentes e não crentes, o livro de Coelet suscita uma certa aversão, tão sombrio é o cenário que apresenta, e logo em contraste com a frescura e exuberância do livro precedente – o Cântico dos Cânticos. Mas a sua inclusão na Bíblia garante uma visão mais realista da situação humana: na nossa relação com Deus há lugar para a indignação e tristeza pelo mal que existe e pelo pouco que somos. Precisamos de uma relação interactiva com Deus – um Deus que importuna e ainda por cima se esconde.
O livro de Coelet passa um autêntico “cartão de estúpido” a quem se apega exageradamente às coisas passageiras, embora a gente deva aproveitar os momentos gostosos da vida. Por outro lado, parece que só as pessoas que não se importam com a justiça é que têm uma vida regalada…
Pessoas boas ou más, ricas ou pobres, ignorantes ou letradas, sábias ou doidivanas… todos voltam igualmente a ser pó. Contudo, Coelet não desiste de viver: vale sempre a pena fazer o que achamos mais acertado.
Mas a pior «vaidade» é pretender que Deus não passa de uma miragem. Para Coelet, se o ser humano se sente tão infeliz, é porque experimenta, de alguma maneira, um nível de vida plena – como Deus que está sempre para além das nossas tentativas de o ver «como Ele é». Ora, todas estas tentativas ficarão como sementes, aparentemente mortas, mas que darão fruto a seu tempo, enquanto houver “lavradores da Humanidade”.
São coisas que só sabe ver quem tem outros olhos, de acordo com a 2.ª leitura. Para S. Paulo, aliás, dar tamanha importância à vida e mensagem de um homem crucificado como malfeitor e que teve por primeiros discípulos gente sem valor aos olhos do mundo, é mesmo uma loucura, um contra-senso. Mas por isso mesmo, se aconteceu alguma coisa (como a frutuosa energia desse homem e seus discípulos) é porque o único ser «que é» a sério, unindo bondade e justiça perfeitas, está presente na história humana e nos leva pelo menos a suspeitar do reverso da medalha. S. Paulo acredita mesmo num mundo restaurado e apresenta a «ressurreição» como a valorização suprema da nossa frágil existência.
Que diria o nosso melancólico autor se visse a Igreja de Cristo «a acumular para si em vez de se tornar rica aos olhos de Deus»? A preocupar-se com «vaidades» e a ligar pouco à melhor semente – a de autênticas (e heróicas) relações humanas?
Curioso o linguajar do negociante do Evangelho: «Minha alma, tens muitos bens para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te»… Destes cuidados, de-via falar ao corpo, que deles precisa para aguentar a energia própria da alma… Pois foi esse o erro: preferiu deixar de ter «alma», que é a imagem do «alimento» da vida. Não quis lutar até ao fim.
Almeida é uma antiga praça-forte que fica para lá das «terras do Demo», bem perto da fronteira e que sabe o que é ser atacada. Para se chegar a «Almeida» e aí aguentar, é mesmo preciso muita «alma»…
Manuel Alte da Veiga
