Superstição e verdade

Poço de Jacob – 44 Há dias, no canal Andalucia, no programa de flamenco “Se Llama Copla”, fui surpreendido por algo que pode parecer banal, mas impressionou-me. Os concorrentes falavam das suas superstições em relação a actuar em palco. A Andaluzia é uma parte de Espanha com um catolicismo forte mas “sui generis”, muito especial, na moda folclórica como se exprime. É um catolicismo muito bonito e arraigado nas tradições e vida deste povo, como de tantos no mundo.

Cada um dos concorrentes falava das suas orações, dos santinhos que invocavam ou traziam no peito, dos gestos e rituais antes de entrar em palco… Um dos jurados, entendido da música flamenca, dos melhores de Espanha, interrompeu e disse que não tinha superstições, mas que não dispensava da sua vida – e tirou-o de seu bolso – o seu Terço, que não deixava de rezar porque certamente que isto trazia sobre ele a atenção da Virgem Maria. Não acreditei que tal estivesse a acontecer numa televisão – e com o aplauso de toda a gente. Isto emociona! Alguém do mundo da arte confessar publicamente e tão naturalmente sua fé, num mundo que tanto a questiona e critica a Igreja, é uma raridade e um dom. Dei graças a Deus por ter presenciado tão nobre atitude.

Na mesma semana, com a televisão ligada por acaso, enquanto trabalhava ouvi num desses programas da tarde das televisões portuguesas um testemunho de uma portuguesa que não posso deixar de referir. Ela tinha ficado viúva do marido com quem vivera 13 anos. Penso que era jogador de futebol e que morreu num acidente de viação. Era brasileiro. O casal vivera um namoro de mais de 10 anos. A entrevistadora perguntou se viviam nesse tempo em comum e ela disse: “Nunca. O meu marido, quando era meu namorado, respeitava-me muito e nunca me tocou. Além do mais, ele era divorciado e nós não nos casámos, porque eu sou ministra extraordinária da comunhão e não podia viver em união de facto. Só saíamos os dois… Até que Deus permitiu que sua ex-mulher falecesse e casámo-nos então. Tivemos um filho, que acabou por perder o pai com 12 anos”. Poderia ter 23, mas a fé desta mulher, colocando-se acima de todo o desejo, e o seu amor pela Igreja e pela Eucaristia não lhe permitiram viver uma união que ela sabia que lhe impediria de ter acesso aos sacramentos por ser ilícita diante da lei de Deus.

Alguém dizer isso, quando as uniões de facto entre católicos praticantes aumentam e se recebe a comunhão como de um doce se tratasse, surpreendeu-me mais ainda do que o Terço do artista espanhol. Dei graças a Deus pelos dois e por ter a Igreja, escondidos nas sombras e luzes da vida, cristãos desta têmpera, que me ajudam, neste Ano Sacerdotal acabado de celebrar, a renovar a minha fé em Jesus. Ajudam-me a não temer mostrar-me padre a este mundo que tem sinais de tudo, mas cada vez mais perde os sinais dos que são de Deus, pelo modo de vestir e de agir.

Ainda há gente que até a sua afectividade condiciona para poder simplesmente dizer a Deus, em verdade, que o ama. Neles, a Igreja cresce, e o Pai é glorificado… Deo gratia.

P.e Vitor Espadilha