“Faz-nos tanta falta o padre Cartaxo!”

Excertos da homilia de D. António Francisco, Bispo de Aveiro, nas exéquias do p.e Manuel Cartaxo, no dia 22 de Julho, na Igreja de Fonte de Angeão

«Este é o Senhor nosso Deus, o único que pode enxugar as nossas lágrimas» (Is 25, 6-9). As lágrimas de que fala o profeta são hoje as lágrimas pesadas dos pais, dos irmãos e da família do nosso Padre Manuel João dos Santos Cartaxo; as lágrimas de gratidão dedicada do senhor D. António dos Santos, de quem ele foi inexcedível colaborador e junto de quem foi sempre e em todas as horas desvelada presença; as lágrimas dos conterrâneos e amigos desta terra que lhe serviu de berço e hoje o envolve de carinho, as lágrimas dos presbitérios das dioceses de Aveiro e da Guarda, das suas comunidades cristãs e dos seus bispos; as lágrimas caídas no chão desta Igreja nova que ele sonhou para a sua terra e que abre pela primeira vez as suas portas para o receber e da igreja nova da sua paróquia de Ponte de Vagos, aqui ao lado, que ele com tanto cuidado ajudava a erguer; mas sobretudo as lágrimas da Igreja viva que todos somos, que sofre e chora por esta tão dura e dolorosa provação. Faz-nos tanta falta o padre Cartaxo!

(…) Temos saudades do Padre Cartaxo! Veremos a partir de hoje lugares por ele ocupados, agora vazios, trabalhos por ele realizados, agora sem operários, e caminhos de alegria, de paz e de reconciliação por ele percorridos agora com menos caminhantes. Sabemos, todavia pela fé que as horas de Calvário, os caminhos desertos da cruz e as noites tristes de luto e de morte anunciam já em vigília para os crentes as manhãs vencedoras da ressurreição e da Páscoa.

(…) O texto do Evangelho, hoje proclamado [Bem-Aventuranças], delineou o perfil e cinzelou a identidade do Padre Cartaxo e moldou-lhe o seu coração sacerdotal neste jeito evangélico de viver. Vinda de longe, uma mensagem de um sacerdote da nossa diocese, Padre Pedro José, diz assim: «recordo o seu jeito de conversar pequeno e leve, totalmente interessado e modesto. Sempre preocupado com a sintonia diocesana, procurava edificar sem impor (…).

O padre Cartaxo (…) regressou a Aveiro [após 25 anos na Guarda, como secretário de D. António dos Santos] e aqui acolheu com impressionante disponibilidade e exemplar comunhão com os seus bispos todos os trabalhos pastorais que lhe eram solicitados, desde o Tribunal diocesano, onde era Juiz e Promotor dos Processos de Ordenações, à colaboração pastoral no arciprestado junto dos irmãos padres, e desde há um ano como Pároco de Ponte de Vagos, até ao ministério precioso do sacramento da reconciliação que semanalmente celebrava no Santuário de Nossa Senhora de Vagos. Trabalhou no Escutismo e era membro da Associação dos Canonistas portugueses.

Na entrada da casa de seus pais, em Coimbra, o Padre Cartaxo escrevera, há muitos anos, em letra sua esta frase: “Tenho uma viagem marcada: Quando a faço não sei. Do que tenho não levo nada. Só levo tudo o que dei”.

Quando regressou a Aveiro para viver em Santo António de Vagos, transcrevera esta mesma frase para a entrada da porta da casa do senhor D. António, onde vivia.

Deus veio ao seu encontro nesta viagem a meio destes dois lugares, ocupado e dedicado junto do pai na fé, que é o bispo, a quem serviu como apelo da missão, e a caminho da casa dos pais e irmãos de quem cuidava com carinho filial e amor fraterno. Insondável desígnio de Deus este, que me leva a rezar, com clamor e lágrimas: Velai, Senhor, pelos nossos padres e fazei surgir vocações sacerdotais, religiosas e missionárias nestas tão abençoadas e fecundas terras de Aveiro. Sei, Senhor, que cuidais de nós e acredito que também na morte prematura e inesperada do Padre Cartaxo, envolvida em mistério insondável, se cumpre a promessa do Evangelho: “O grão de trigo lançado à terra germinará a seu tempo e os frutos serão abundantes”.

Na viagem que agora faz, o Padre Cartaxo leva consigo «tudo o que deu» e é imenso! Deixa-nos «tudo o que tem» e é um tesouro de graça e de bênção quanto nos deixa do seu trabalho despojado, do seu testemunho sacerdotal exemplar e do seu amor à família, à terra e à Igreja. A força com que na segunda-feira um dos seus irmãos, um seu condiscípulo de seminário e eu lhe pedíamos no Hospital, em Coimbra, para que não partisse é a mesma fortaleza da fé com que hoje, em nome da Igreja e de todos nós, lhe agradeço o bem que fez e a vida que deu e lhe suplico que junto de Deus, na bem – aventurança eterna dos justos vele por nós e abençoe a Igreja da Guarda e de Aveiro, que ele tanto amou e tão bem serviu. Obrigado por tudo, caro Padre Cartaxo!