A questão do ensino estatal e particular e o descrédito dos políticos

DOMINGOS CERQUEIRA

Infelizmente, como a muitos portugueses, o meu interesse pelas coisas da política partidária vai esmorecendo a um ritmo avassalador: ou é a pública falta de dignidade de muita gente hoje envolvida nestas coisas da política; ou são os cada vez mais tachos políticos dados aos filiados dos partidos que têm poder para isso; ou é a demagogia usada a torto e a direito por aqueles que teriam a obrigação de nos representar, mas que não passam senão a representar e defender os interesses dos patrões a quem têm de obedecer; ou são as mentiras despudoradas com que são tratados assuntos sérios, todos os dias nos meios de comunicação social; ou é a hipocrisia com que alguns políticos tratam o povo – juram fidelidade até ao fim, mas passada a primeira esquina traem os compromissos assumidos e apenas mostram defender os interessesdo dono e do patrão e respectivos amigos. Exemplos do que acabo de escrever? Basta abrir as nossas televisões, para a cada momento assistirmos a encenações que nos repugnam e que a muitos de nós nos levam a tirar o som ao aparelho ou a mudar de estação. É exagero o que acabo de escrever? São injustas estas palavras? O cada vez maior número de portugueses que a cada dia viram as costas aos interesses do País e aos interesses das nossas terras diz-me que não é exagero nenhum. Vejamos o número assustadoramente crescente de portugueses que a cada acto eleitoral prefere ir passar o dia num qualquer piquenique familiar, ou num passeio até ao mar ou até à serra, ou calmamente a assistir a um jogo de futebol do clube do seu coração, e que já não se dispõe a despender 15 minutos do seu horário para ir até às urnas de voto. Votar é uma obrigação de cidadania? Continuo a acreditar que sim. Se não escolhermos quem nos há-de governar, que direito teremos de criticar? Mas quantas vezes, ao olharmos para os nomes das listas que cada partido nos apresenta, não vemos senão os oportunistas, os incompetentes, os que reconhecidamente têm passado a vida a enganar o próximo.

Apesar de ainda haver muito boa gente na política, apesar de ainda ter muitos e bons amigos a exercerem cargos públicos por eleição popular, os critérios na escolha dos militantes partidários vão sendo cada vez mais em função dos dinheiros que conseguem para os cofres dos partidos ou do número de votos que aparentam conseguir, principalmente em eleições internas. E o poder vai estando cada vez mais nas mãos dos oportunistas do que nas das pessoas decentes que ainda por lá andam. Até quando? Verdadeiramente, até quando as pessoas que continuam a ter nas suas mãos o poder do voto o quiserem.

Esta ligeira meditação que estou a fazer em voz alta teve o seu início há já uns dias, quando ouvi algumas palavras da sr.ª ministra da Educação, querendo justificar perante os portugueses a perseguição em curso contra o ensino não estatal. E dizia a sr.ª ministra, não sei já exactamente com que palavras, que não estava para gastar dinheiros públicos nas escolas particulares para serem gastos em piscinas ou em campos de golfe ou até na prática de equitação. Esta foi talvez a demagogia mais maldosa que tenho ouvido a um governante. Esta senhora governante apenas pretendia puxar para o seu lado ou os esquerdistas baratos que estão sempre contra a iniciativa privada ou o batalhão assustadoramente crescente de portugueses que já não têm pão para dar aos filhos, por responsabilidade de quem nos tem governado, e que poderia estar mais sensível a desperdícios de dinheiros públicos. São atitudes destas que hoje me levam a pensar da política o que escrevi no início destas linhas.

Há muita gente que diariamente se afasta da política e que já está farta deste governo devido a atitudes verdadeiramente demagógicas como a da senhora ministra.

No fundo, a senhora ministra mostra ter uma inveja, que lhe fica mal, por saber que o ensino público fica incomensuravelmente mais caro do que a maior parte das escolas de ensino particular, as quais têm uma qualidade que é realçada pelas estatísticas de que vamos tendo conhecimento. Depois, porque apesar do ensino de excelência ministrado em muitas destas escolas, gratuito, ainda oferecem aos alunos a iniciação e a prática desportiva em modalidades atraentes.

Relembro com muita saudade o Padre João Mónica, um dos obreiros de um destes colégios particulares, o Colégio de Calvão. Lembro com muita gratidão as conversas que tivemos nas instalações do colégio. Lembro-me do seu entusiasmo na concretização de cada passo rumo a um colégio cada vez mais ao serviço da comunidade. Lembro-me da sua alegria quando da construção da piscina e dos seus projectos para pôr este equipamento ao serviço das pessoas daquela comunidade. Sei da adesão dessas pessoas em todas as campanhas de angariação de dinheiro para que as obras não parassem. Sei da colaboração dos alunos e das famílias e de professores a carregar tijolos e baldes de cimento para que esta obra caminhasse sempre para a frente. Lembro-me da exploração agrícola ali existente, onde se criavam porcos e galinhas para que as despesas fossem melhor suportadas.

Naquele colégio há muito sangue, suor e lágrimas para se ter chegado onde se chegou. Desde sempre, naquele colégio tem havido uma dedicação total, um amor fantástico, e uma competência inexcedível, que o foram construindo dentro de critérios de excelência.

Sei também do sofrimento por que estão a passar todos os que nestes tempos têm de continuar a desenvolver este serviço ao próximo, através do ensino. Na pessoa do seu actual responsável, o padre Querubim, deixo uma humilde palavra de solidariedade, neste momento tão difícil por que estão a passar, a todos os professores, a todos os alunos, a todas as famílias, a toda a população de toda aquela região.

E neste colégio, que conheço melhor, revejo todos os colégios, todos os alunos, famílias e professores, em situações semelhantes, principalmente o Colégio Frei Gil, de Bustos, onde me desloco dois ou três dias por semana por motivos familiares. Sei da competência de quem o dirige e dos sacrifícios que se fazem para poderem continuar a prestar o serviço que prestam com a qualidade que é reconhecida.

Haverá escolas em que nem tudo será transparente? Por certo. Medir tudo como se todos fossem incompetentes, oportunistas e criminosos é uma das grandes provas da incompetência desta senhora ministra.

Estou certo de que por causa da sua tristíssima demagogia, e por causa da sua total incapacidade para fazer contas, para honestamente nos dizer quanto estamos todos nós a gastar com o ensino público e com o ensino particular, incluindo a construção e conservação de edifícios escolares mesmo com as piscinas e os pavilhões das escolas, repito, estou certo de que os prejuízos que esta senhora irá provocar no seu governo e no partido que o sustenta, serão irreparáveis.

Aveiro, 3 de Março de 2011