A fé e a teologia estão a dar-se mal com a ciência

O Simpósio Fé e Cultura, promovido pelo Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro (ISCRA), deixou mais desafios à fé do que à ciência. Faltam provocações e respostas dos crentes.

Que desafios coloca a ciência à fé? O P.e Alfredo Dinis começou a responder à pergunta citando Bento XVI, quando era cardeal, que escreveu que entre os crentes existe um sentimento semelhante aos passageiros de um barco prestes a afundar-se. Na realidade, a fé parece ameaçada pelas ondas da ciência, da tecnologia, das novas concepções éticas. “A fé ainda tem futuro?”, perguntou Joseph Ratzinger. E o padre jesuíta, director da Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa, responde, reconhecendo fragilidades de quem professa a fé: “Nós, os crentes, não estamos a acompanhar o repto. Há crentes que perdem a fé e a interrogam a partir da descrença. E quem está de fora não fica convencido de que estamos a acompanhar os ritmos da mudança”.

De onde vêm os conflitos entre fé e ciência? “A Bíblia tem sido a causa dos grandes conflitos devido a uma teoria da inspiração bíblica” que durante séculos concebeu o texto bíblico como “ditado divino”, omitindo que também é linguagem humana. Interpretada à letra, como o foi durante longos séculos pelas correntes dominantes do cristianismo e como ainda é pelos cristãos fundamentalistas, principalmente nos Estados Unidos, a Bíblia deixa “demasiados desafios para compaginar com a ciência”. Galileu, no séc. XVII, foi dos primeiros a romper com a concepção cosmológica que previa a Terra do centro do universo e que correspondia à cosmologia bíblica. Surge Darwin, no séc. XIX, com a teoria da evolução dos seres vivos pela selecção natural e mais um episódio bíblico tem de ser reinterpretado: Adão e Eva e a criação da humanidade e a subsequente doutrina do pecado original. Como falar de pecado transmitido de geração em geração, como dizia a doutrina tradicional, se não houve aquele primeiro par do Génesis?

Deus no cérebro?

Alfredo Dinis lançou ainda mais algumas questões: “Antes, pensava-se que o mundo teria uns seis mil anos e até se discutia em que dia da semana Deus teria criado a Terra. Hoje sabemos que o universo surgiu há cerca de 15 mil milhões de anos, e que há 100 a 150 mil milhões de galáxias como a nossa e que cada uma terá 100 a 150 milhões de sistemas solares. Onde fica a humanidade no meio disto? E Deus criador?” Um esboço de resposta: “Deus até constantemente a tornar possível a criação. Está aí diante dos nossos olhos”. Mais uma provocação: Fala-se hoje em neuroteologia. Consiste na localização no cérebro da parte que é estimulada quando se pensa em Deus. Alguns dizem, baseando-se nisso, que Deus está no cérebro ou que Deus é simplesmente uma função cerebral. “É um raciocínio muito fraquinho. Quem afirma isso confunde condição necessária [certa parte do cérebro ser estimulada] com condição suficiente [a causa real do funcionamento cerebral, no caso, a fé ou o pensamento sobre Deus]”.

De qualquer forma, também nesta questão “a teologia não está a enfrentar de caras estes desafios”, diz. Por isso, “pergunto às vezes aos meus colegas teólogos o que andam a fazer”, afirmou o jesuíta, sublinhando a sua convicção na compatibilidade entre fé e ciência, entre o que se crê e o que se sabe.

Sebastião Formosinho, professor de Química da Universidade de Coimbra, afirmou que “a ciência também tem de partir de uma base de crença, um pressuposto de confiança”. Há como que “um quadro fiduciário divino sobre a inteligibilidade de universo”. Na realidade, é hoje consensual que a ciência positiva nasceu no Ocidente porque, estando o céu limpo de deuses, o universo era concebido como tendo sido criado por Deus segundo leis racionais e estáveis que o ser humano podia descobrir. O professor universitário, com vários livros publicados em co-autoria com o padre e filósofo Oliveira Branco, de Coimbra, contou, a propósito, que se houve homens da igreja que foram cientistas, alguns cientistas viram-se a si mesmos como sacerdotes da ciência. Um deles só fazia experiências ao domingo, num paradoxo entre o louvor a Deus e a sacralização da ciência.

Hoje, porém, a Igreja, que “noutros tempos esteve na vanguarda, foi a pouco e pouco ultrapassada”. A Igreja “é mais lenta do que a ciência. Parece que perdeu o fôlego, o motor da novidade”, afirma Formosinho. “O esforço tem de ser das duas partes. Mas falta da parte dos teólogos darem-nos a surpresa”.

Jorge Pires Ferreira

Na próxima semana: Padres Póvoa dos Reis e Teilhard de Chardin: a fé encontra a ciência e dão-se bem. Richard Dawkins: quando a ciência quer repelir a fé.