«Atenção quer dizer atenção»

A Árvore de Zaqueu DOMINGO XV do tempo comum – Ano C

Não vale a pena iludir as respostas, quando estas dependem de nós. Reza a tradição que um sábio mestre do oriente repetia sem cessar: «Atenção, atenção!»

Perguntando-lhe o discípulo o que afinal queria dizer sempre com uma palavra só, teria o mestre esclarecido com um sorriso: «Atenção quer dizer atenção».

Atenção ao que passa perto de ti, atende ao teu coração! – Diz a 1.ª leitura. Atenção ao que Jesus é para o mundo! – grita S. Paulo. Atenção aos teus pensamentos e aos teus passos, que sejam movidos pela procura da justiça sem fingimento – remata por fim Jesus (a modos daquele mestre que dizia sempre a mesma coisa mas significando sempre um novo modo de agir); não fiques a discutir academicamente «quem é o meu próximo», porque, se ouvires o teu coração e se olhares bem à tua volta, sem te quereres enganar a ti próprio, logo verás que é a ti que compete transformar em bem-fazer a tua atenção.

A 1.ª leitura é retirada de um vasto e importantíssimo texto sobre a aliança entre Deus e os Homens, tão importante que foi posto na boca de Moisés, como um testamento espiritual do grande guia do povo de Deus. Na realidade, consiste num aglomerado de exortações, mas também de aprofundamento de conceitos centrais para o emergente judaísmo (“palavra, lei, aliança, mandamento, herança, sabedoria”…), cada vez mais consciente do alto nível da sua espiritualidade. O livro foi-se formando desde os anos 700 até 400 a.C. E o «povo escolhido» não hesita em pôr na boca dos outros povos palavras de admiração: «Que povo sábio e inteligente é esta grande nação! E que tem um Deus tão perto do povo, atento às suas orações e que traçou leis e preceitos tão justos!» (Deuteronómio 4,1-14).

O Deuteronómio exorta-nos a estar atentos às várias maneiras com que Deus se aproxima de nós (para além das festas litúrgicas), para assim descobrir os traços de Deus e a sabedoria sobre o que é o Homem. Só interiorizando o valor do caminho da justiça, é que alcançamos de Deus a coragem para não desistir (no domingo passado, falava-se em «não olhar para trás»).

Provavelmente, o doutor da lei (evangelho) tinha o Deuteronómio tão bem decorado, que não teve tempo para lhe prestar atenção. E assim deixou de ver a simplicidade de Deus e como Ele nos fez «à sua imagem». Deus está sempre à espreita, “mortinho” por que seja convidado a entrar em cena. Também Jesus se mostrou muitas vezes “mortinho” por «fazer parte do nosso grupo». E o samaritano, esse, encontrava-se literalmente “mortinho” para ser socorrido por alguém também consciente de ser imagem de Deus.

Atenção a Deus quer dizer: atenção à imagem de Deus.

Manuel Alte da Veiga