Religioso orgulhoso

Poço de Jacob – 41 Quando Jesus disse à samaritana “o marido que tens não é teu”, a reacção da mesma poderia ser como a de muitos homens ou como a de Herodíade, acusada de adultério por João Baptista. Ou a de tanta gente a quem não se aponta o dedo da correcção fraterna e da firmeza de princípios com medo de melindrar. Como acontece com tantas uniões de facto que comungam ao Domingo sem terem quem lhes chame a atenção, não vão eles sentir-se excluídos, apesar de terem feito uma opção em que não incluíram a Igreja. Mas a Samaritana era mulher da verdade e sabemos que ela entendeu o que Jesus lhe dizia: “Este homem não é teu e só podes seguir-me se o deixares, por muito afecto que lhe tenhas”. A vida dela terá mudado, sem dúvida, para o Evangelho sublinhar tão bem esta personagem. Gente assim, com vidas desorganizadas, é alvo preferencial da Misericórdia do Senhor, pois quem se reconhece pecador já entrou no caminho da Graça.

Deus tem feito maravilhas em homens como Charles de Foucauld, Eva Lavallière e tantos pecadores famosos que se converteram quando a graça os tocou. Eram ateus, ou pecadores, mas de corpo inteiro. Gente que sabia o que fazia e o fazia com a sua verdade. Apostavam nisso, sabendo que era o bem que queriam. Não duvidavam nem hesitavam nas decisões. Pecavam, mas pecavam por inteiro. Não aparentavam uma coisa que não eram. Se prostituta, então prostituta. Se ladrão, como Zaqueu, então ladrão e ponto final. Esses são matéria grossa e forte para a Misericórdia manifestar-se.

Quando o “grappin”, o demónio, tentava o Cura d’Ars, ele sabia que no dia seguinte teria caça grossa no confessionário. Deus não ama o pecado, mas o homem que vive na sua autenticidade atrai a Deus e dá-lhe uma base de natureza para fazer desse homem um grande santo como Santo Agostinho.

O que lemos no Apocalipse, na carta às Sete Igrejas, é que nos preocupa: “Não és quente nem frio. Porque és morno, eu te vomito da minha boca”. É aí que vemos o grau tão aparentemente baixo de conversão dos que nos dizemos crentes e até consagrados. Habituamo-nos ao religioso. Trabalhamos na Igreja. Consideramo-nos perfeitos por termos feito este ou aquele curso. No entanto, não nos convertemos, apresentando ao mundo comportamentos medíocres. Não somos ousados e não há entusiasmo na nossa voz e na nossa vida. Não damos testemunho de Cristo porque falamos dele mas não o conhecemos: “«Senhor comemos contigo», diremos ao bater-lhe à porta e Ele responderá: «Não vos conheço»”… Por isso, o que mais custa a converter, e os santos consideram tarefa impossível para Deus, por implicar pecado contra o Espírito Santo, é o homem religioso, que no seu orgulho se acomodou ao seu modo medíocre de ser. Cristo quer homens que incendeiem o mundo no Amor do Evangelho e, para tal, não hesitará, foi Ele quem o disse, em encher o Céu de prostitutas e publicanos pecadores…

P.e Vitor Espadilha