Não despertaram em mim qualquer interesse, a mãe e a filha que, sentadas a meu lado, ordeiramente e segundo as conveniências impostas pelo número que a máquina lhes atribuíra, esperavam a sua vez. Ao contrário, o meu sorriso esboçara-se de imediato, quando ela chegou com o seu bebé. Não que a conhecesse, mas tão-somente porque um bebé é sempre razão de alegria e encantamento. Aproximara-se, porque o seu número assim lho ditara: primeiro aquele senhor que queria uma fotocópia, depois ela com o seu bebé. A seguir, eu e, depois de mim, aquela outra mãe com a filha dos seus vinte anos, sentadas a meu lado, ordeiramente.
Ou porque a razão lho ditou, ou porque o coração lho exigiu, com um leve sorriso, a menina do guichet, eficientíssima, movendo-se do computador para a fotocopiadora e para a impressora, cumprindo zelosamente as suas obrigações, com ânimo nunca visto a quem, rotineiramente, atende o cidadão na sua Loja, disse: “Tem prioridade. Posso atendê-la já.” Mal tive tempo de observar o gesto de apreço, mas de recusa delicada, por parte da mãe com o seu bebé, pois a filha que não me despertara qualquer atenção, quando minutos antes se sentara com a sua mãe, lançou um comentário tão estranho que me fez voltar a cabeça, repentinamente e sem a subtileza que a situação poderia exigir. “Para a próxima, arranjo um de borracha e também sou prioritária!” Olhei e re-olhei. Que maldade, que insensibilidade (que amargura?!) moveria aquela filha ali sentada, cuja mãe nada disse face àquele comentário desabrido e mau?! Estarrecida, vi a mãe ser atendida, num desvelo para com o bebé que sorria, alheados ambos do mundo de gente grande e maldosa.
Chegou a minha vez e, na minha vez, fui atendida pela menina do guichet, eficientíssima quando lidou com o senhor da fotocópia, com a mãe que tratou de um qualquer impresso, comigo que requeri um documento. E, certamente, eficiente quando atendeu, depois de mim e na sua vez, porque não era prioritária, aquela mãe e aquela filha mal-educada, ou amargurada!
E, de repente, pensei que aquela mágoa poderia ser uma reacção estranha àquela reportagem sobre outra mãe e outra filha que passara na televisão na véspera. Só podia ser! Então, apesar de surpreendente, começou a fazer sentido aquele comentário sobre um bebé de borracha. Tal como eu, aquela filha ali sentada ao lado de sua mãe provavelmente vira, atónita, que uma rapariga de 21 anos investe as suas poupanças em bonecos que parecem autênticos bebés: desde o batimento cardíaco, aos desvelos que merecem as crianças, passando por gavetas cheias de roupa e acessórios, como carrinhos de bebé. Uma reportagem que me deixou incomodada com a morbidez do assunto: diariamente, a rapariga de 21 anos brinca com três bonecos, um recém-nascido e dois com alguns meses, muda-lhes a roupa, leva-os a passear, e está a poupar mais 250 euros, pois já encomendou outro boneco para lhe mudar a roupa e o levar a passear. Aliás, a “avó” embevecida é a assessora desta estudante universitária, e gosta tanto da sensação de ter um filho bebé boneco que ela própria já encomendou um, irmão boneco da rapariga universitária, tio boneco dos bebés bonecos, “filhos” da “sobrinha” de 21 anos. Confuso? Para mim, um atentado à dignidade das crianças e das mães que, diariamente, lutam com a falta de recursos para darem o mínimo aos seus bebés de carne e osso, que choram a sério, que fazem convulsões, que ficam doentes, que não as deixam dormir, que têm de comer, que têm de ter roupa nova, porque crescem rapidamente, que precisam de ir à escola, que são prioritários.
