“Quando a dor é um convite”

Olhos na Rua O Dr. Jorge Biscaia, médico pediatra de grande prestígio, velho amigo que muito admiro pela inteireza da sua fé e como apóstolo da linha da frente, de passagem por Aveiro, pôs-me nas mãos o seu último livro. É dedicado à sua esposa, que bem conheci. Celebrados que foram os cinquenta anos de casamento, uma doença grave espreitava já, e a Maria Antonieta partiu. A dar sentido à memória do coração, o marido escreveu este livro a que deu o título sugestivo “Quando a dor é um convite”. Deixei para este tempo de Páscoa a referência que agora lhe faço. Nele a seguinte dedicatória: “Para a Maria Antonieta que me deu o seu amor, uma visão feminina do mundo e foi um farol de Deus na minha vida”. É a memória viva de muitos anos, a recordação grata de um amor que encheu todos os momentos, de um itinerário espiritual em comum, de um caminho apostólico andado, de um propósito inicial que perdurou e iluminou a vida do casal e da família. Por aqui passaram os amigos, os que ajudaram a caminhada, os que dela beneficiaram. É o modo de dizer que a santidade é a normalidade cristã, o testemunho mais eloquente de uma vida pascal, o apelo diário à construção de um “nós” original, que em nada anula a riqueza de cada um. Quando a dor é maior e inevitável, o convite pascal de ir mais além perdura sempre como luz e como força.