Bem-aventurado!

O Mundo exultou de alegria: o “homem que veio de Leste” foi publicamente reconhecido e proclamado bem-aventurado! O Papa da comunicação, da juventude, da nova evangelização, da proximidade ao Homem, à cultura, ao trabalho, ao sofrimento…, é agora ícone consagrado de caminho de santidade.

Três privilegiados momentos de encontro pessoal com João Paulo II deixaram marcas espirituais fortes na minha pobre peregrinação de cristão e presbítero. O primeiro, menos de um mês após a sua eleição, quando de um encontro de Assistentes Internacionais de Movimentos de Leigos. Na audiência especial, fiquei estupefacto com a capacidade de comunicação do Santo Padre. Nos cumprimentos pessoais, sucediam-se os diversos presbíteros, os quais saudavam o sucessor de Pedro na língua que lhes era mais fácil. Pois, já nessa altura, o “disco” papal mudava em escassos segundos. Senti que essa era verdadeiramente uma forma hodierna de Pentecostes.

O segundo momento foi a longa acção de graças, em profundo recolhimento, que fez o Santo Padre, na sua capela privativa, em concelebração dos presbíteros portugueses a estudar em Roma, em aniversário do atentado ao Papa na Praça de S. Pedro. Quantos fizemos essa experiência, percebemos que a sua intimidade com Jesus Cristo, no Seu “dom por excelência” que é a Eucaristia, seria um dos segredos do memorável vigor do seu pontificado.

O terceiro momento, a menos de dois anos da sua morte, ocorreu na audiência aos congressistas de um evento catequético. Eram já visíveis os efeitos da doença. A presença de João Paulo II na sala foi possível com a ajuda de um transporte próprio. Após as palavras formais, para surpresa de todos, o Pontífice percorreu os corredores da sala, saudando praticamente todos os presentes (umas centenas) de forma pessoal. E com o mesmo dom das línguas. A meu lado, uma religiosa russa falou-lhe na sua língua materna. Logo de seguida, dirigi-me ao Papa em Português, que me estendeu a sua mão doente. Entre as breves palavras trocadas, não faltou nos seus lábios a palavra Fátima. Mas o que foi mais impressionante foi a serenidade do seu rosto sofredor, que ainda teve forças, ao deixar a sala, para um momento de humor.

Bem-aventurado! Foi esse o fulgor que sempre se lhe notou no rosto, em tantas horas de gozo – por exemplo, na noite da JMJ 2000, cadenciando o seu pé ao ritmo do entusiasmo musical dos jovens -, como nos momentos difíceis e dolorosos. Transfigurava-se, sobretudo, quando o seu olhar se cruzava com a imagem daquela a quem se entregara totalmente – a Virgem Maria!