É errado olhar para a história ou para o presente e pensar em causas únicas

O historiador José Eduardo Franco, doutorado pelas universidades de Aveiro e de Paris e professor na Universidade Nova de Lisboa, coordenou recentemente a obra “Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal” (com Ana Cristina da Costa Gomes e José Augusto Mourão) e os três volumes “Arquivo Secreto do Vaticano”, um sumário de 14 mil documentos relativos a Portugal que estão nos arquivos privados do Papa – é isso que significa “secretos”. Na primeira tertúlia do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro em 2011/12, José Eduardo Franco aconselhou a não aceitar as conspirações da cultura popular do passado e do presente. São “explicações de causa única”, quando a realidade é bem mais complexa. A palestra e conversa sobre as “forças ocultas que movem a história portuguesa” decorreu no Centro Universitário, na noite de 5 de Outubro. Resumo de Jorge Pires Ferreira.

Ler o passado é difícil

Se o futuro seduz e é realidade oculta, o passado não deixa de ser oculto nas entrelinhas dos documentos, quer nas fontes, no interior de uma biblioteca, quer nos manuais escolares. Interpretar o passado é desenvolver uma arte da desocultação.

Do providencialismo…

Até ao séc. XVII vigorou uma linha de interpretação da história em perspectiva bíblica. Para lá da história visível, considerava-se que havia um dinamismo oculto que movia todos os acontecimentos. Era uma leitura providencialista. Deus dispunha os acontecimentos em vista a determinados fins. Mitificou-se a história de Portugal, numa perspectiva determinista tida como cristã, mas que também entrava em conflito com o cristianismo, visto que não deixava espaço para o livre arbítrio.

… ao sebastianismo…

Da leitura providencialista nasce o sebastianismo. Portugal é pensado como o novo povo eleito da Aliança e olha para a perda de independência (1580-1640) como sendo o exílio de Israel na Babilónia.

… ao positivismo…

Em 1910, na implantação da República, predominava a leitura positivista, baseada na sociologia do francês Auguste Comte, que dizia que a história evoluía segundo a lei dos três estados: teológico, metafísico e positivo. Neste último, a fé devia desaparecer, emergiria uma sociedade regida pela razão e pela ciência.

… e ao marxismo

Ao longo do século XX, predominou a leitura marxista. A história é vista como um processo longo, ascendente, marcado pela luta de classes. A própria Inquisição é vista como uma luta entre a classe dos cristãos velhos e a dos cristãos novos, a burguesia.

Lei da causalidade única

Somos muito seduzidos pelas teorias da conspiração, que são explicações simplificadas da história e dos mecanismos humanos, geralmente de causa única, a que já chamaram lei da “causalidade diabólica”. A propaganda política e a publicidade utilizam muito esta lei, pois explicam tudo à luz de uma só causa. Ora, é muito fácil dizer que quem está por detrás de tudo o que de mal acontece são os jesuítas ou os maçons ou o anterior governo.

Mito dos jesuítas

O Marquês de Pombal, para o propósito político do absolutismo real, criou e divulgou o mito de que os responsáveis pelos séculos de ruína de Portugal eram os jesuítas. Por isso, mandou traduzir obras antijesuítas, como o “Monita secreta”, de um ex-jesuíta polaco, expulsou-os do país e fez com que outros os expulsassem, até o Papa abolir a ordem.

Triângulo

Há pessoas que entram numa igreja, vêem o símbolo do triângulo e do olho (símbolos da Santíssima Trindade) e pensam que a igreja usa os símbolos maçónicos, quando é precisamente o contrário.

Republicanismo

Os primeiros republicanos, anticlericais, esperando que a religião desaparecesse, acreditavam no processo de aceleração da história na sociedade portuguesa. Estavam convencidos de que estava a surgir uma nova idade e que a igreja era o principal bloqueio do país. Na realidade, a perseguição religiosa do princípio do século XX em Portugal despertou a Igreja com a Acção Católica e os anos de ouro do catolicismo, nas décadas de 1950 e 1960.

Força oculta?

Pensar que há uma força oculta, actualmente, na sociedade portuguesa é uma visão redutora e perigosa. Forma-se um governo e tenta-se logo contar se este ou aquele é maçon ou do Opus Deis. Basta ir à missa para ser do Opus Dei. Mas a realidade não é assim. Há múltiplos factores. A história é sempre mais complexa. O oculto é sedutor, mas pouco real.

Espírito ecuménico

No “Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal”, colaboraram católicos, maçónicos, esotéricos. Houve resistências de parte a parte; não queriam aparecer uns ao lado dos outros, porque a cultura portuguesa é muito dominada ideologicamente. Enquanto não ultrapassarmos as resistências, não chegamos a uma sociedade democrática. Temos de perder o medo e correr o risco de lançar a mão e ser torpedeado. Com esta obra, aprendeu-se a olhar para o lado. Fez-se um exercício de tolerância, até porque a obra não é combativa. Passou a predominar o espírito ecuménico.