Educação e Ambiente Após alguma reflexão sobre o que escrever hoje, decidi-me por um pequeno texto que li de Filipa M. Ribeiro. Abri o email e lá estava ele, à minha espera:
“Não dou um passo fora de casa onde não ouça lamúrias, pessimismo, onde não veja pessoas cabisbaixas e até os ricos se queixam. Troquem as lamúrias, pela luta, pela denúncia, pela mudança e pela consciência do que estava mal a nível individual e coletivo!”
A consciência “do que estava mal a nível individual e coletivo” e “a mudança” parecem-me essenciais. O que não é sinónimo de serem fáceis.
Bem pelo contrário.
Na grande maioria das vezes é bem mais confortável apontar o dedo do que olhar para dentro. Para mim mesmo(a).
Olhar para mim e descubrir o que está menos bem, o que posso mudar, como posso mudar.
Há algum tempo, uma conversa com uma grande amiga, senhora dos seus oitenta anos, deixou-me pensativa. O tema foi “culinário”. Melhor dizendo, desenrolou-se desde a questão da ementa para o almoço até aos rissóis e à frigideira com o óleo usado. Terminando com a lavagem da loiça – frigideira incluída.
Para “despachar o assunto”, o óleo iria ser deitado “cano abaixo”, com a ajuda de detergente e bastante água quente. Afinal, é um hábito “desde há muitos anos”. O óleo desaparece da vista e da cozinha. A frigideira lava-se e fica tudo pronto e arrumado.
Bom, o que não fica “arrumado” são as tubagens e a maquinaria por onde esse óleo vai passar até chegar ao seu destino final. Destino final? Mas quem é que se lembra de pensar no destino do óleo usado para fritar os rissóis do almoço?
A resposta é: quem é responsável por gerir as estações de tratamento de esgotos [estações de tratamento de águas residuais, ou ETAR]. Estas estações de tratamento recebem tudo aquilo que deitamos “cano abaixo”. Mas… (e é um grande mas) estas estações são desenhadas, dimensionadas, para tratar esgotos, águas sujas. E não, águas sujas contaminadas com óleo alimentar usado – o óleo usado para fritar rissóis, croquetes, batatas, etc. Se o deitarmos pelo cano abaixo esse óleo vai contaminar o restante esgoto e dificultar o seu tratamento; forma-se uma película que impede a degradação, a oxidação da matéria orgânica. Os equipamentos instalados nas ETAR não funcionam de forma tão eficiente quando o esgoto tem óleo. A questão pode resolver-se? Podemos recolher o óleo usado, depois de arrefecido, numa garrafa e colocá-la num “oleão” – ecoponto destinado à recolha de óleos alimentares usados? Podemos achar que isso dá muito trabalho e não vale a pena? Podemos achar que o dinheiro gasto na manutenção e arranjo dos equipamentos, as “máquinas” das ETAR, não é da nossa conta? Podemos achar que sempre deitámos o óleo pelo cano abaixo e vamos continuar a fazê-lo…? Podemos procurar fazer diferente e melhor, dando ao óleo um destino novo?
Sim. O óleo alimentar usado é um dos ingredientes para o fabrico de sabão, por exemplo.
Nota: Filipa M. Ribeiro é jornalista e investigadora na Universidade do Porto. Em 2009 editou, em co-autoria com Luísa Pereira, “O Património Genético Português. A história humana preservada nos genes”, (Gradiva. Coleção Ciência Aberta), http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/1281.
