Constituição e sínodo da nova evangelização

A Constituição sobre a Revelação Divina, com mais alguns documentos fundamentais, como as exortações apostólicas de Paulo VI sobre a Evangelização e de Bento XVI sobre a Palavra do Senhor, estarão na mesa do Sínodo dos Bispos que está a decorrer. Assim como, Cristo, a Palavra, estará no Centro das preocupações e das orientações sinodais, com lugar cativo e indispensável em toda a reflexão.

Depois do que ficou dito nos artigos anteriores, que podemos ver ainda de muito importante, na Constituição, para além do tema central sobre a natureza da Revelação e da sua transmissão? Vamos encontrar orientações claras sobre a inspiração e interpretação da Palavra, que vão além do que antes se ensinava, bem como o sentido do Antigo e do Novo Testamento e a relação complementar entre os dois, para que se perceba a História da Salvação e a Aliança de Deus, a culminar em Jesus Cristo.

O Antigo Testamento não se pode ler, com proveito, se não tiver no horizonte, por mais largo que ele seja, a Pessoa de Jesus Cristo. Tudo quanto contém no seu entrelaçado histórico e simbólico se ordena para preparar a vinda do Messias. Assim, é levado a formar, com o Novo Testamento, uma unidade. Este, por sua vez, com os Evangelhos em lugar primordial, dá à Palavra uma dimensão enriquecedora: a sua inspiração e fonte, a Pessoa de Jesus Cristo, as palavras de Jesus que são, juntamente com os seus gestos, o elemento revelador da missão salvífica, como expressão da vontade do Pai, realizada por seu Filho, Jesus.

A Constituição é inseparável da vida da Igreja, como se afirma no texto. Por ela se torna necessário atender à luz projetada pela constante tradição e interpretação sobre a teologia e a pregação, para que, deste modo, a sua leitura chegue ao povo crente, como Palavra viva e vivificante.

50 anos após o Vaticano II, que se poderá dizer da aceitação da Palavra de Deus? Um dos pontos mais relevantes foi a atenção dos especialistas bíblicos em aprofundar, sempre mais, aspetos sublinhados pela Constituição como a Revelação, inspiração, verdade da Escritura, hermenêutica, géneros literários, historicidade dos Evangelhos, tradição, magistério, uso da Bíblia na vida da Igreja.

Assim, dentro dos limites determinados pela fé, os estudos bíblicos continuam a avançar, com uma vertente muito importante, a aproximação das diversas posições das Igrejas Cristãs e de todos os cristãos, em ordem ao ecumenismo, talvez o terreno mais difícil durante centenas de anos. Fazem-se, hoje, estudos em comum, publicações em comum, orações em comum. A passo e passo, nota-se, não apenas o desanuviar dos céus borrascosos de tempos passados, mas a aproximação progressiva, respeitosa e serena, dos crentes em Jesus Cristo, à procura da unidade, que, por certo, não será uniformidade.

Enzo Bianchi diz que, depois do Concílio, a Bíblia penetrou mais visivelmente em três setores: as paróquias e grupos a elas ligados, os movimentos eclesiais com os seus centros de espiritualidade, os movimentos de libertação, ligados às comunidades cristãs de base. Certamente que, de modo diferente, em cada caso. Vale a pena realçar o que de positivo se passa nas paróquias, não obstante o caminho que ainda resta andar por parte de algum clero, que, em muitos casos, descuidou a sua atualização bíblica e voltou à pregação moralista, rotineira ou de erudição vazia. Também por parte de catequistas impreparados, incapazes de transmitir um amor entranhado à Palavra de Deus e ao seu verdadeiro sentido.

Nas paróquias a Palavra de Deus chegou ao povo através da difusão da Bíblia, da catequese e da liturgia. Há mais traduções bíblicas acessíveis, lecionários litúrgicos bem preparados, comentários às leituras com outra riqueza. Em muitas paróquias cantam-se salmos e reza-se parte da Liturgia das Horas. Um cristão, assíduo à Eucaristia dominical, vai adquirindo formação bíblica, que antes não era possível. O acesso mais generalizado à Palavra é hoje, na Igreja, uma experiência consolidada, que torna mais manifesta a presença viva do Senhor na comunidade crente.

A proliferação de grupos bíblicos e o apoio que os mesmos recebem de instituições a isso dedicadas, em cursos, semanas de estudo, encontros e publicações, não pode deixar de se assinalar como grande contributo que leva a Bíblia ao povo e às famílias.