O que realça do pontificado de Bento XVI?

“Um humilde

trabalhador

da vinha do Senhor”

Destaco três atitudes marcantes: o testemunho de uma fé inteligente que perpassa em toda a sua vida, designadamente na aceitação do ministério petrino e das circunstâncias que o balizaram, no modo corajoso e lúcido como o exerceu e na dignidade edificante como anunciou a resignação; a serenidade determinada com que trata grandes “causas” da Igreja, sobretudo a pedofilia, a dissidência da fé e algumas questões éticas “fraturantes”; a simplicidade e elegância do seu magistério, especialmente a facilidade de escrita e comunicação, a proximidade afável e familiar na relação humana, o ensinamento claro e profundo de temas nucleares e “de fronteira” da mensagem cristã e das suas múltiplas repercussões nos saberes humanos.

Bento XVI, apesar de toda a sua estatura filosófica e teológica, ficará na história como “um humilde trabalhador da vinha do Senhor”, um pastor arrojado no exercício da sua missão, um profeta dos “tempos novos” que na simplicidade abre caminhos a todos os que, libertos de preconceitos, queiram servir por amor, quer na Igreja, quer na sociedade.

Georgino Rocha, padre, pró-vigário geral da Diocese de Aveiro, professor de Teologia

“Vivemos esta

aventura juntos”

Era Agosto de 2005, as ruas da cidade de Colónia estavam cheias de jovens e as margens do Reno eram pequenas para os tantos que queríamos acolher o novo Papa, o primeiro para além de João Paulo II a presidir a umas Jornadas Mundiais da Juventude. É a primeira memória e o primeiro encontro que recordo do Papa Bento XVI, destacando esta proximidade de homem tímido que em Madrid teimou em voltar ao altar e concluir a vigília após uma imensa tempestade, dizendo calorosa e afetuosamente “Vivemos esta aventura juntos”!

Registo também o legado escrito que nos deixa, seja na riqueza das suas encíclicas, nos seus livros ou nas mensagens em datas ou encontros importantes. Conseguiu prender a atenção da leitura em palavras simples, não de grandes slogans, mas que convidam a ir procurar os textos.

Este é também o Papa que soube chamar ao diálogo as gentes da cultura, abrindo novos átrios de comunicação, não de massas, mas de atenção especial a áreas desafiantes para a nova evangelização.

Ondina Matos,

enfermeira, diretora do Secretariado Diocesano de Pastoral Juvenil e Vocacional

Afirmação da razão

Destaco de Bento XVI a persistência na afirmação da razão, em diálogo com a fé, como meio de interpretação do mundo. Ele retomou com todo o vigor o diálogo fé-razão. Por outro lado, em consonância com isto, mas concretizando, contrariou o subjetivismo dos valores, o relativismo, o pensar que tudo vale, que tudo é moralmente igual por não haver referências éticas sólidas. Por fim, destaco o momento da renúncia ao pontificado. É um gesto de grande significado para o mundo e principalmente para a Igreja.

Francisco Melo, padre, pároco da Gafanha da Nazaré e da Gafanha da Encarnação e coordenador da Comissão da Missão Jubilar