Síntese das jornadas de formação permanente do clero de Aveiro, que decorreram na Casa Diocesana, Albergaria-a-Velha, de 10 a 13 de fevereiro.
Estamos a chegar ao fim das Jornadas de Formação, vividas ainda em tons de Missão Jubilar, mas já a olhar para a frente, lugar onde surgem as perguntas que nos assolam em tantos dias e nos ocupam e preocupam: E agora?
Foi para tentar responder a este “E agora…?” que surgiram estas Jornadas de Formação: “Da missão é evangelização e da Evangelização à missão. Itinerários de fé”.
1. D. José Cordeiro apontou o Itinerário proposto pela Igreja como o modelo a seguir e que é usado quase desde o princípio. Já no sec. III na “Traditio Apostolica”, o catecumenato é apontado como o caminho a seguir como tempo de preparação para o Batismo. Mas acrescentou: “Apesar de exaltada na memória, continua muito esquecida na prática”.
2. Daqui uma urgência: “Precisamos de fazer uma atualização viva e criativa do catecumenado”, sugerindo, por exemplo, que a preparação e caminhada para o sacramento da Confirmação, o Crisma, possa acontecer em jeito catecumenal.
3. “No processo de se tornar cristão todos os passos são importantes, desde o anúncio da Palavra, acolhimento do Evangelho que implica conversão, profissão de fé, batismo, infusão do Espírito Santo e comunhão eucarística” que insere na comunidade e desperta para a missão.
4. O espaço onde esta caminhada se desenvolve é a liturgia: “Nenhuma aula, catequese ou formação pode substituir a própria celebração litúrgica”, sendo que há alguns riscos “que impedem a liturgia de manifestar a unidade da Igreja” ou “fazer da liturgia um ritualismo e um rubricismo”. Por isso, “há linguagem que precisa de ser revista e linguagem que precisa de ser reeducada”, sublinhando que “a liturgia é a grande escola da fé e de iniciação ao mistério de Cristo”. Há que educar em chave mistagógica, concluiu.
5. Este caminho catecumenal que a Igreja nos apresenta no Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos parte da premissa que já Tertuliano apontava nos seus escritos: Não se nasce cristão, o cristão faz-se. Para issso, a Igreja apresenta um caminho de Iniciação Cristã que se desenvolve em 4 etapas: pré-catecumenato, catecumenato, purificação e iluminação e mistagogia. Sendo este o caminho, é hora de se institucionalizar um verdadeiro caminho catecumenal através da criação de um Centro Catecumenal, diocesano ou arciprestal.
6. Estava concluída a primeira parte da Formação. Importava agora ver como este caminho catecumenal está a ser experimentado em algumas dioceses da Igreja. E assim veio até nós na pessoa do seu bispo D. Dominique Rey, a diocese de Frejus-Toulon. A sua comunicação, fundada, sobretudo, a partir da experiência realizada na sua diocese, teve como tema: “Anunciar a fé nos tempos de hoje”. Na primeira parte falou dos “preâmbulos do anúncio”, onde leu a fé do crente de hoje como um olhar sobre Deus, a Igreja e o mundo. E afirmou: “Pesa sobre o cristianismo um julgamento severo, constrangedor, austero, sofredor, enfadonho, fundado em proibições, pouco compreensível, dogmático, desadaptado”.
7. A fé cristã aparece de costas voltadas para o mundo que, ao contrário, apregoa a liberdade sem constrangimentos, o prazer imediato, o hedonismo. Como ultrapassar estas duas visões? O cristão deve ver o mundo como Deus o vê, ver as coisas a partir de Deus. E isso converter-se-á num olhar de esperança que não se contenta em lamentar-se do nosso tempo, mas acredita que Deus não deixa de actuar com a força da sua graça. Para isso, temos de cultivar os valores da interioridade e promover a inteligência da fé.
8. Partindo do conteúdo do Kerigma – anúncio do fundamental cristão – o Bispo francês ocupou a segunda parte com o “Anúncio” desse núcleo central da nossa fé que deve ter em conta a proclamação da palavra, o testemunho de vida vivido na caridade porque “… há muitas pessoas sacramentalizadas que são pouco ou nada evangelizadas”. Para terminar, exemplificou alguns dos métodos usados na sua diocese para levar a efeito este anúncio: porta a porta, visita ao domicílio, evangelização das ruas ou nas praias, peregrinações ou missões populares sem esquecer os bares e as festas.
9. E foi sobre a paróquia que veio o seu segundo tema: paróquia como local privilegiado de evangelização. A paróquia, e começou por citar João Paulo II, “… é a própria Igreja que vive no meio dos seus filhos e filhas” (CfL 26). É lá que Deus se revela num lugar particular, se cristaliza o Evangelho, se traduz o aqui e agora, lhe dá corpo. Ela é, pois, ponto de partida para a nova evangelização. Mas não basta a vontade ou o zelo missionário – continuou – é preciso conhecer o terreno para que a proposta seja adequada e não uma receita pré-concebida (congelado pastoral) que se revela desadaptada e faz notar o desconhecimento do meio.
10. Esta caminhada exige uma visão missionária que parte do Evangelho e se recebe a partir da oração. Não se trata, pois de inventar um novo programa porque ele já existe, é de sempre e baseia-se no Evangelho e na Tradição viva da Igreja que não muda com o tempo ou com as culturas.
11. Este caminho tem exigências: parte da conversão interior de cada um e tem por fim suscitar um dinamismo missionário que leve a comunidade a ser integradora de todos os que a procuram por este ou por aquele motivo, independentemente da sua situação concreta ou das motivações da sua fé.
12. Este acolhimento inicia um processo que, na comunidade, passa pelos seguintes elementos: inscrição num pequeno grupo, acompanhamento personalizado, formação contínua (catecumenato), participação em actividades e serviços dos mais pobres e profissão de fé.
13. O fim de toda esta caminhada, que nunca está acabada, tem por fim a construção da fraternidade paroquial (feita de pequenas comunidades) que se destina a testemunhar, de forma permanente, uma possibilidade de vida em comunhão e de responsabilidade dirigida para a missão.
14. Num segundo momento, e falando particularmente da sua experiência diocesana, o Bispo de Frejus-Toulon falou da diaconia no coração da Missão e das resistências que todo este processo encontra. Estas vêm de dentro da própria Igreja como, por exemplo, o imobilismo, o clericalismo, o individualismo cepticismo mas também de fora, como a indiferença que reduz a fé a algo de privado, intimista.
15. Contra estas resistências, o bispo apontou, a concluir, a regra dos “7C”: caridade, convicção, coerência, conhecimento e competência, carisma, comunhão e comunicação.
16. Por fim e a completar a experiência desta diocese francesa tivemos a oportunidade de ouvir três outras experiências que não são outra coisa que três itinerários mais no caminho da fé: Os cursos ALFA; o caminho neo-catecumenal e o Movimento Mundo Melhor.
17. E agora? Continua a mesma pergunta animada pelos desafios que o papa Francisco nos deixou na sua exortação apostólica e que poderemos resumir no seguinte:
a. O desafio que é, para a Igreja, a própria figura do papa
b. O centro da Evangelização é Jesus Cristo
c. O diálogo Igreja-Mundo onde a Igreja, vivendo no mundo, de quem recebe muitas coisas, não se confunde com ele, mas tem uma mensagem a propor.
d. Esta mensagem põe em causa toda a Igreja a começar pelo papa, os bispos, os sacerdotes, as paróquias e todos os homens. Aqui têm um lugar especial as crianças, o jovens, os mais idosos e os doentes… as periferias.
e. Para quem evangeliza, o ponto de partida é a contemplação do Senhor que leva cada um a fazer a sua conversão pessoal para depois, ser enviado.
P.e Manuel J. Rocha
