Alarga-se o fosso entre os poucos que têm muito e os muitos que têm pouco

 

Plutocratas

Plutocratas
Chrystia Freeland
Temas e Debates
415 páginas

 

Este livro tem como subtítulo “A ascensão dos novos super-ricos globais e a queda de todos os outros”. Ou seja, é sobre a crescente desigualdade de rendimentos entre pessoas, não propriamente sobre a pobreza, mas sobre a disparidade de distribuição do dinheiro. Os novos super-ricos são menos de 1% cento, pelo que já alguém escreveu que “este é um livro que 100% dos 99% por cento deve ler”.
Alguns dados indicam que, de facto, caminhamos a nível global para um extremar de posições. Ao mesmo tempo que alguns dados revelam que cerca de 400 milhões de pessoas saíram da pobreza, principalmente na Ásia, graças à globalização, outros revelam que os ricos estão cada vez mais ricos, sendo isso mais fruto do sistema global do que do mérito das pessoas em causa. “Dinheiro faz dinheiro”, diz o povo.
Vejamos alguns dados deste livro:
– nos Estados Unidos, em 1970, 1% dos mais ticos tinham 10% do rendimento total; em 2005, 1% dos americanos possuíam 30 % da riqueza do país; em 2011 os mesmos 1 % detêm 35 % da riqueza norte-americana;
– em 2009 e 2010 o rendimento nacional dos EUA cresceu 2,3%; no entanto, enquanto o rendimento de 99% dos americanos cresceu 0,2%, o dos americanos mais ricos (os tais 1%) saltou 11,6%.
O mesmo se passou na Europa, na Ásia, na América do Sul… Os dados apresentados no livro estão em consonância com outros que foram muito badalados em janeiro de 2014, quando em Davos, Suíça, estava reunida a nata do capitalismo e da política mundial:
– 1% da população mundial é dona de quase metade (46%) da riqueza do mundo;
– 85 pessoas ricas têm o mesmo património (1,7 triliões de dólares) que 3,5 mil milhões de pessoas, metade da população mundial, a metade mais pobre;
– os cinco homens mais ricos do mundo em 2014 (Bill Gates, que tem liderado a filantropia dos multimilionários e acredita que em 2035 não haverá países pobres, Carlos Slim, Amâncio Ortega, Warren Buffet e Larry Allison) possuem 318 mil milhões de dólares, mais que do PIB português (252 mil milhões de dólares), mais do que a soma do PIB dos seguintes países, que têm 172 milhões de habitantes e não são, de longe, os mais pobres: Madagáscar, Moçambique, Afeganistão, Camarões, Tanzânia, Uruguai, Jordânia, Costa do Marfim; a riqueza dos três mais ricos é superior à dos 48 países mais pobres.
O assunto da desigualdade de rendimentos é, como será de supor, “ideologicamente desconfortável”, diz a autora. Logo no início da obra, relata o caso de um investigador que tem dificuldade em obter financiamento para estudos sobre a desigualdade, mas não sobre a pobreza. Um dos que garante os patrocínios que tornam possíveis tais estudos explica porquê: “A minha preocupação com a pobreza de algumas pessoas, com efeito, projeta sobre mim um brilho muito simpático e caloroso: estou disponível para usar o meu dinheiro para os ajudar. A caridade é algo de bom; muitos egos engrandecem-se com isso e ganha-se muitos pontos na escala da ética quando se dá aos pobres, nem que seja pequenas quantias. Mas a desigualdade é diferente: qualquer referência que se lhe faça sugere, na verdade, a questão do direito ou da legitimidade do meu rendimento” (pág. 10).
Este livro fica bem ao lado de outro que tem feito muito furor, “O Capital no Séc. XXI”, de Thomas Piketty. O economista francês, considerando que o capitalismo não tem concorrente à altura mas deve ser corrigido por uma via fiscal fortemente redistributiva, tem dito que “a repartição da riqueza é uma questão demasiado importante para ser deixada apenas a economistas, sociólogos, historiadores e filósofos. Ela interessa a toda a gente, e ainda bem”. Chrystia Freeland, que é canadiana e foi diretora-adjunta do “Financial Times” só pode concordar.

J.P.F.