
D. António Moiteiro anuncia que em setembro retoma a programação das visitas pastorais pela diocese, que D. António Francisco dos Santos não concluiu, avançando para Águeda. Na área da caridade, o Bispo de Aveiro diz que é preciso acautelar o impacto da crise nos saldos das instituições particulares de solidariedade social da Igreja, otimizando recursos e meios. Entrevista conduzida por Júlio Almeida.
CORREIO DO VOUGA – A completar meio ano de Diocese de Aveiro, qual o balanço o que faz?
D. ANTÓNIO MOITEIRO – Já visitei mais de metade das igrejas matrizes da diocese, estive em mais de metade das paróquias, onde celebrei a Eucaristia e me encontrei com grupos de jovens que se crismaram, com adultos em ações de formação e com sacerdotes.
Que retrato lhe fica?
Encontrei uma diocese dinâmica, à espera de um novo bispo, visto que o anterior foi mudado para o Porto, com várias pessoas a discordarem. Houve um compasso de espera que é normal. É preciso um processo de consultas a leigos, sacerdotes e outros bispos para essa mudança ser feita. Mas encontrei a diocese com vontade de trabalhar, de se organizar e renovar. O meu papel é presidir à Diocese de Aveiro. Agora estou inserido numa tradição que não é muito longa, dura desde a sua restauração, há 76 anos. Mas senti-me bem acolhido.
Disse na chegada que gostaria de continuar o dinamismo da missão jubilar.
A missão jubilar pretendeu celebrar os 75 anos da restauração da diocese e também relançar a diocese nestes dinamismos novos, que até coincidiram com a nomeação do Papa Francisco.
É uma diocese muito dependente do bispo?
Todas as dioceses têm como referência o bispo. Aqui é uma referência diferente, em que o bispo está muito presente. A diocese é territorialmente pequena, a gente desloca-se com facilidade e pede-se a presença do bispo de modo diferente de outros lugares.
Está mais à mão?
Sim, está mais presente. Agora há que saber conjugar estas duas realidades: a presença no que é fundamental, para crescer e renovar, mas é preciso que as pessoas tomem conta dos seus destinos e que elas próprias caminhem por si.
Quais as marcas que gostaria de deixar?
A marca pessoal vamo-la descobrindo à medida que a diocese vai caminhando. Depois do Concílio Vaticano II, deu-se muita importância à formação dos leigos. D. Manuel Almeida Trindade, Bispo do Concílio, sentiu necessidade de construir a Casa Diocesana de Albergaria-A-Velha para ser um polo de formação. Entretanto, cresceu a Universidade de Aveiro como polo de desenvolvimento. D. António Marcelino sentiu necessidade de construir o Centro Universitário de Fé e Cultura. Depois disso, D. António Francisco deu atenção aos padres idosos, que precisavam de mais acompanhamento no fim da vida e nasceu a Casa Sacerdotal Santa Joana, no seminário.
Qual a minha marca? Queria que fosse a da diocese, no caminhar com a diocese, vendo o que é mais importante na sua renovação espiritual. Mas uma das prioridades é arranjar um espaço, renová-lo, para instalar os serviços pastorais.
Outra realidade a que devemos responder é criar uma rede comunhão ao nível das instituições da diocese. Temos instituições de solidariedade social, com crianças, jovens em risco e idosos nas paróquias. Porque não uma rede de comunhão a vários níveis? Faz sentido uma central de aquisição de serviços. Sinto que as instituições de solidariedade social atravessam grandes dificuldades. A crise faz com que o Estado colabore menos e as pessoas possam contribuir menos. Por outro lado, as respostas têm de ser mais intensas. Se não otimizarmos recursos, não respondemos com qualidade aos desafios.
No campo pastoral, penso na renovação da formação cristã, dos vários agentes, para que na fé não haja um divórcio entre o que se acredita e o modo como se vive.
Encontra no terreno, essas estruturas, capazes de serem mais mobilizadas?
A Igreja de Aveiro tem respondido com muita generosidade nas mais diversas valências. As paróquias estão atentas às respostas de ordem social.
A fé cristã tem sempre três dimensões, que devem estar harmonicamente articuladas: o anúncio do evangelho, a obrigação, a celebração da fé e não podemos ficar na Igreja, mas levá-la para a vida. As obras sociais são as respostas dos cristãos às dificuldades sociais, como contributo à renovação do mundo.
A Diocese de Aveiro foi restaurada em 1931, no ano seguinte foi instituída a obra social das Florinhas do Vouga. D. João Evangelista não se contentou em restaurar a diocese e criar a primeira paróquia, em Pardelhas, mas também lançou uma obra de cariz social para dar resposta às carências das mulheres e filhos de pescadores.
A Cáritas Diocesana é uma obra social de referência. Também sente essa pressão de socorro social?
Também. Tem várias valências, uma casa de apoio a crianças e jovens em risco, o serviço de apoio a violência doméstica e uma série de valências que respondem a estas dificuldades da atualidade, envolvendo-se em campanhas, mesmo para o estrangeiro.
E o esforço das Santas Casas de Misericórdia?
Procuro conhecer. Já estive com todos os provedores, numa reunião. O apelo que faço, no respeito pela autonomia como instituições da Igreja, é que cumpram as obras de misericórdia nas dimensões físicas, no bem das pessoas, e espirituais, de formação, etc. Mas o futuro das instituições joga-se muito na formação dos seus voluntários e funcionários, que são o rosto das instituições.
O voluntariado pode crescer?
Pode e deve. As Conferências Vicentinas, por exemplo, que estão muito no terreno, na primeira linha de apoio social, devem ter capacidade de renovação. Será mais eficaz se aparecerem mais pessoas envolvidas. Têm muito jovens incorporados, está a acontecer, pelo que vejo, em harmonia.
As paróquias envolvem-se em grandes obras sociais. É um risco ou uma oportunidade?
As duas coisas. A caridade não é apenas dar, mas colocar-se no lugar do que sofre. Este Papa fala muito disso. A caridade é Deus.
Mas também há um risco, que estamos a acautelar, com o qual me preocupo. Estas instituições, na crise em que estamos, também passam por uma crise grande, ficam com saldos negativos. Os utentes pagam menos, ou não podem pagar. Não os podemos pôr na rua. Há exigências que depois se tornam onerosas para o orçamento.
O padre [pároco], por natureza dos estatutos, é o presidente da instituição social, do centro paroquial e social, por exemplo. Pensamos criar um organismo que seja de apoio às instituições sociais da Igreja. Poderemos fazer um trabalho mais em comunhão, técnico e de gestão.
Mas o Estado, que recebe os impostos, tem a obrigação de ajudar socialmente. Para nós, ajudar provém do dinamismo da nossa fé, do exercício da caridade organizada como comunidade cristã. Somos uma ajuda, um complemento. A obrigação primeira não é da Igreja. O Estado tem de distribuir os recursos pelas necessidades. Às vezes parece que às nossas instituições particulares exige-se mais do que às do Estado.
Há algum aspeto que o tenha surpreendido pela negativa na diocese?
Não. Mas há coisas que podíamos fazer de forma diferente e mais articuladamente. O que conhecia na Guarda, depois em Braga, encontrei em Aveiro, as mesmas possibilidades e dificuldades. Aspeto muito positivo, que me surpreendeu, foi a capacidade industrial da nossa zona, com reflexos importantes no emprego.
Uma diocese com bispos muito populares e marcantes no panorama nacional…
Marcou D. Almeida Trindade, presidente da Conferência Episcopal depois do 25 de Abril. Vamos celebrar em julho os 40 anos da primeira manifestação dos cristãos na defesa da democracia. Foi em Aveiro que começou a reação coletiva do povo contra a tentativa de implementar regimes autoritários.
De D. António Marcelino, tenho a imagem de um homem que ia à frente na análise dos problemas e visão das coisas, muito ativo e profundamente inteligente e que procurava dar resposta aos problemas que analisava. Os escritos dele no Correio do Vouga eram de alguém que procurava essas respostas.
D. António Marcelino esteve muito ligado ao direito de optar pela escola, na defesa dos colégios da Igreja.
Estamos a conseguir mantê-los, apesar de em alguns casos reduzirmos alunos e turmas, com muitas dificuldades. O ensino particular e cooperativo continua a dar resposta e com resultados.
O importante é dotar os alunos para responderem amanhã aos desafios da sociedade. O importante não é quem dirige as escolas, se o Ministério ou as instituições particulares, mas preparar os alunos para o futuro.
Não podemos pretender um financiamento para as públicas diferente do das particulares, impondo-se saber quanto custa um aluno em cada tipo de escola. Se todos pagam impostos, é importante ter equidade na distribuição. O direito dos pais a escolherem o ensino não existe porque a maioria, infelizmente, não tem possibilidade de poder pagar.
Fez um doutoramento a estudar os catecismos portugueses, entre 1953 e 1993. Como vê na atualidade a catequese?
Temos feito um esforço muito grande. Mas o desafio é, também, formar os catequistas.
Sente as Igrejas mais vazias?
Sinto que há menos prática religiosa. Notam-se comunidades envelhecidas, em que as crianças e jovens não aparecem tanto. Mas na nossa diocese tem sido feito um esforço muito grande na catequese familiar. É acompanhada pelos pais. É muito positivo fazer a caminhada cristã em conjunto, facilita a transmissão da fé.
O ciclo de entrevistas ‘As Vozes da Ria’ é uma parceria entre Correio do Vouga, CanalCentral.pt, Rádio Voz da Ria (90.2FM) e NotíciasdeAveiro.pt.
Temos um padre para três mil habitantes, é razoável”

Ao nível de padres, como está a Diocese? A união de freguesias trouxe novos desafios?
A nível da Igreja já tínhamos vindo a unificar serviços pastorais, um pároco com duas ou três paróquias, sendo que estas continuam a manter a sua individualidade.
Teremos na diocese uma comunidade de cerca de 300 mil cristãos. Entre padres diocesanos e dos institutos religiosos, temos cerca de 100 padres. Temos um padre para três mil habitantes, é razoável.
Na minha vida pessoal, trabalhei sempre nas paróquias. Mesma ao dar formação a futuros padres, no seminário, tive paróquias. O meu estilo de bispo está muito relacionado com isso, com a formação das pessoas, a par de restaurar Igrejas e património.
As pessoas esperam dos padres e dos bispos hoje que sigam o fenómeno que é o Papa Francisco?
É o estilo de vida deste Papa. Vem de um continente com tremendas desigualdades sociais. Fez uma caminhada pessoal de seguir o seminário depois da universidade. Depois, viveu o tempo da ditadura argentina como superior dos jesuítas e bispo, daí ter um estilo próximo dos mais frágeis, dos perseguidos, dos que não têm trabalho. Pede à Igreja para ir às periferias. É o modo como Jesus, por exemplo, cuidava dos leprosos, que eram afastados da sociedade.
Vai retomar as visitas pastorais às paróquias?
Sim. Uma das obrigações primeiras do bispo é a visita pastoral. A cada cinco seis anos temos de visitar todas as paróquias. Ao fim de um ano, terei estado em quase todas as igrejas matrizes. Mas não fiz visitas pastorais, que são mais demoradas. A partir de setembro, começo por Águeda. D. António Francisco não teve tempo de ir lá. Faltou-lhe ainda Ílhavo e Aveiro. Vou a estes três arciprestados e depois seguirei para os restantes.
