Magistério na Igreja

Querubim Silva Padre. Diretor
Querubim Silva
Padre. Diretor

As afirmações do Papa Francisco no discurso da sessão comemorativa dos 50 anos da instituição do Sínodo dos Bispos merecem o conhecimento e a reflexão do Povo de Deus. Por isso voltamos a elas.
A propósito da sinodalidade referida no editorial anterior, convém ainda concluir com o itinerário dessa sinodalidade proposto pelo Bispo de Roma: “O Sínodo dos Bispos é o ponto de convergência do dinamismo de escuta dirigido a todos os níveis de vida da Igreja. O caminho sinodal inicia-se escutando o Povo, que «também participa da função profética de Cristo», segundo um princípio caro à Igreja do primeiro milénio: ‘Quod omnes tangit ab omnibus tractari debet’ (o que a todos diz respeito por todos deve ser refletido).* O caminho sinodal prossegue escutando os Pastores. Através dos Padres sinodais, os Bispos agem como autênticos guardiães, intérpretes e testemunhas da fé de toda a Igreja, a qual devem saber atentamente distinguir dos fluxos muitas vezes mutáveis da opinião pública”.
O Papa tem a clarividência de que é preciso distinguir a profunda, íntima e espiritual sensibilidade às questões da fé e da moral de opiniões volúveis, construídas muitas vezes sob pressões culturais, políticas, ideológicas ou mesmo económicas. Por isso, recorda o Bispo de Roma as suas palavras na véspera da Assembleia extraordinária do Sínodo do ano passado: “Ao Espírito Santo, antes de tudo, pedimos, para os Padres sinodais, o dom da escuta: escuta de Deus, a fim de perceber com Ele o grito do Povo; escuta do Povo, a fim de respirar a vontade à qual Deus nos chama”.
E o caminho sinodal “culmina na escuta do Bispo de Roma, chamado a pronunciar-se como «Pastor e Doutor de todos os cristãos»: não a partir das suas convicções pessoais, mas como testemunho supremo da fé de toda a Igreja, «garante da obediência e da conformidade da Igreja com a vontade de Deus, com o Evangelho de Cristo e a Tradição da Igreja».” Em verdade, o caminho de toda a Igreja faz-se cum Petro et sub Petro, não como limitação da liberdade, mas sim como garantia de unidade. Porque a Igreja que nos apre-senta o Vaticano II não é uma monarquia, mas uma comunhão hierárquica.
É o caminho da sinodalidade, como dimensão constitutiva da Igreja, que nos permite perceber melhor o próprio ministério hierárquico. S. João Crisóstomo dizia: “Igreja e Sínodo são sinónimos”. Por isso, prossegue o Papa Francisco, “percebemos também que no seu interior (da Igreja) ninguém possa ser «elevado» acima dos outros. Pelo contrário, na Igreja é necessário que cada um «se baixe» para se colocar ao serviço dos irmãos durante o caminho”.
“Nunca o esqueçamos” – prossegue Francisco: “Para os discípulos de Jesus, ontem, hoje e sempre, a única autoridade é a autoridade do serviço, o único poder é o poder da cruz, segundo a palavra do Mestre.” O Papa acrescenta, nesse sentido: “Estou persuadido de que, numa Igreja sinodal, também o exercício do primado petrino poderá receber nova luz”. Aliás, um desejo já expresso por S. João Paulo II, com um pedido à igreja para que o ajudasse a encontrar o melhor caminho de servir a comunhão das Igrejas e a unidade da fé.
Os sinais presentes indicam-nos uma vontade firme, por parte do papa Francisco de dar um irreversível impulso a esta consciência sinodal afetiva, que se torne, em momentos precisos, efetiva. E propõe mesmo que a Igreja se torne sinal erguido entre as sociedades deste caminho a percorrer em cooperação, contra a entrega do destino de populações inteiras nas mãos de grupos restritos ávidos de poder.
A Ressurreição é um facto! A Primavera nascida de Cristo é imparável!

* Versão do autor