Mensagem para a Quaresma de 2016: Não fechemos a porta à misericórdia

1. A alegria do encontro
O que melhor manifesta a mais profunda identidade do Ser de Deus é o amor, a misericórdia de Deus para connosco: amor pelo qual o Pai, o Filho e o Espírito se unem entre si e com toda a humanidade; amor pelo qual Cristo se revela como o autêntico e único Filho de Deus, e pelo qual vive toda a sua vida como uma oferta ao Pai, convertendo-se em exemplo para todos os seus seguidores.
Se quisermos descobrir algumas das características de como é o Deus de que Jesus nos fala, é fundamental meditarmos nas parábolas sobre a misericórdia (cf. Lc 15). Nos três casos, é Deus – o pastor, a mulher, o pai – quem toma a iniciativa de ir ao encontro. Uma diferença importante se manifesta: perante a falta de responsabilidade da ovelha e da moeda, no filho aparece o exercício da liberdade. O pai respeita as decisões do filho – o que supõe estar com o coração a sangrar à espera que ele regresse. O pai, que o espera, acolhe-o e abraça-o, mas a sua magnanimidade contrasta com o coração do filho mais velho, que, vivendo sempre dentro da mais estrita legalidade, não é capaz de se alegrar com o regresso do irmão, nem aceita o amor do pai que o acolheu. O pai, identificado com Jesus, supera as leis, move-se na compaixão, no amor – atitude que deveria ser a de todos nós.

 

2. As obras de misericórdia
Em tempos difíceis, de fortes contradições e de grandes esperanças, evocar “as obras de misericórdia” significa apreender um novo impulso de humanidade, para não permitir que a mentira, a hipocrisia, a corrupção, a avidez do poder, a barbárie e a indiferença prevaleçam neste mundo que deveria ser de proximidade, de afetos e de harmonia. Refere o Papa Francisco: «É meu vivo desejo que o povo cristão reflita, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual» (MV 15). Abrir o coração à misericórdia é viver “as obras de misericórdia”, fazer a experiência do encontro, da ‘peregrinação’ pelas variadas periferias existenciais.
O Deus que usou de misericórdia no passado continua, hoje, a agir da mesma maneira connosco. «Onde a Igreja estiver presente, aí deve ser evidente a misericórdia do Pai. Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia» (MV 12). Não fechemos a porta à misericórdia.
A simplicidade de vida, que o Evangelho nos propõe, nasce do amor aos outros e traz algumas exigências à nossa vida de discípulos de Jesus. Temos de tomar consciência de que a relação do homem com os bens materiais não é de domínio, mas sim de simples administração (cf. Lc 16,2), e não podemos chamar nosso àquilo que pertence a todos, tal como se afirma no Sermão da Montanha: «O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles» (Mt 7,12). Jesus foi o rosto visível do Deus invisível e aquele que melhor cultivou um estilo de vida simples e partilhada. A seu exemplo, recordemos que “a felicidade está mais em dar do que em receber” (At 20,35).

 

3. O nosso caminho quaresmal
Na Bula de proclamação do Jubileu, o Papa Francisco convida toda a Igreja a que a Quaresma do Ano Jubilar «seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus» (MV 17) e propõe como meios para a vivência deste Ano Jubilar a peregrinação, o jejum/partilha, o sacramento da reconciliação e a indulgência.

 

O sacramento da reconciliação e a indulgência
Quando se reúnem ao mesmo tempo vários penitentes para celebrar o sacramento da reconciliação, com absolvição individual, é importante que se preparem para ela por meio da celebração da palavra de Deus. Como afirma o Ritual da Penitência, a celebração em comum manifesta mais claramente a natureza eclesial da penitência: na verdade, os fiéis escutam, em conjunto, a palavra de Deus que proclama a sua misericórdia e os convida à conversão, ponderam a sua vida, confrontando-a, em conjunto, com a mesma palavra de Deus e ajudam-se mutuamente na oração (n.º 22).
Conforme consta do nosso Plano Diocesano de Pastoral, na segunda, terça e quarta-feira da Semana Santa haverá celebrações penitenciais, com absolvição individual, para toda a Diocese, com a presença dos sacerdotes do nosso presbitério.
Declaro como jubilares todas as igrejas paroquiais no dia em que, no tempo da Quaresma, se celebrar o sacramento da Reconciliação. A possibilidade de lucrarmos a indulgência própria do Ano jubilar é uma graça concedida pela Igreja e à qual todos devemos ter acesso. As condições indispensáveis para ‘lucrar’ a indulgência são: a celebração dos sacramentos da Eucaristia e da Confissão, a caridade e a oração pelas intenções do Santo Padre.

 

Caminhada Quaresma/Páscoa
Na Carta Pastoral publicada no início do Jubileu Extraordinário da Misericórdia que estamos a celebrar, assinalámos como momentos relevantes na vida da nossa Igreja Diocesana, e que constam do nosso Plano Diocesano de Pastoral, a Quaresma/Páscoa, com dinâmicas e temas de formação cristã sobre a misericórdia; as ‘vinte e quatro horas para o Senhor’ e a peregrinação da Imagem de Nossa Senhora de Fátima. Vamos também, neste Ano da Misericórdia, dar especial atenção ao Evangelho de S. Lucas, através da sua distribuição nas comunidades cristãs e dos dez temas de formação que devem ser refletidos em grupos paroquiais, meditados em família ou mesmo individualmente.
A peregrinação da imagem de Nossa Senhora de Fátima deverá marcar o nosso tempo pascal. Desejamos ardentemente que a sua passagem entre nós seja um momento propício de escuta da palavra de Deus, de mais oração e conversão, e incitamento para irmos ao encontro de tantos irmãos afastados da fé e da prática religiosa. A experiência do encontro com Maria deverá ser sempre um apontar para o seu Filho, único Salvador.
Neste sentido, as Igrejas e outros espaços (hospital, prisão…) onde estiver a Imagem de Nossa Senhora de Fátima serão também lugares jubilares, onde poderemos beneficiar da graça deste Ano Santo.

 

Renúncia Quaresmal
O jejum e a partilha são elementos essenciais na vivência do Jubileu. Este ano a renúncia quaresmal da nossa Diocese de Aveiro será repartida entre os cristãos perseguidos pelo ódio da intolerância religiosa e a necessidade urgente de dotarmos os Serviços pastorais diocesanos de espaços de trabalho e de reuniões, adaptando, para o efeito, uma zona do nosso Seminário de Santa Joana.

Que Maria, a Mãe da Misericórdia, e Santa Joana, nossa Padroeira, nos acompanhem neste esforço de renovação com o estímulo do seu exemplo.

Aveiro, 2 de fevereiro de 2016
† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro