
Francisco e Cirilo unidos em defesa do Cristianismo em todo o mundo. Encontro histórico decorreu em Cuba. Os dois líderes cristãos estão preocupados com o futuro do Cristianismo e da civilização humana.
O Papa e o patriarca ortodoxo de Moscovo assinaram no dia 12 de fevereiro uma declaração conjunta, após o seu encontro inédito em Havana, manifestando preocupação com as perseguições religiosas e o terrorismo.
“O nosso olhar dirige-se, em primeiro lugar, para as regiões do mundo onde os cristãos são vítimas de perseguição. Em muitos países do Médio Oriente e do Norte de África, os nossos irmãos e irmãs em Cristo veem exterminadas as suas famílias, aldeias e cidades inteiras”, refere o texto, assinado por Francisco e Cirilo, na capital cubana.
Depois de os líderes da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa Russa se terem reunido pela primeira vez na história, durante cerca de duas horas, decorreu a assinatura desta declaração conjunta, na sala do protocolo do aeroporto internacional José Martí.
O Papa e o patriarca russo evocam as igrejas “barbaramente devastadas e saqueadas”, objetos sagrados profanados e monumentos destruídos. “Na Síria, no Iraque e noutros países do Médio Oriente, constatamos, com amargura, o êxodo maciço dos cristãos da terra onde começou a espalhar-se a nossa fé e onde eles viveram, desde o tempo dos apóstolos, em conjunto com outras comunidades religiosas”, advertem.
Os dois responsáveis pedem uma “ação urgente” da comunidade internacional para prevenir nova expulsão dos cristãos do Médio Oriente. “Ao levantar a voz em defesa dos cristãos perseguidos, queremos expressar a nossa compaixão pelas tribulações sofridas pelos fiéis doutras tradições religiosas, também eles vítimas da guerra civil, do caos e da violência terrorista”, prosseguem.
Ameaça de nova guerra mundial
A declaração recorda que a violência na Síria e no Iraque já causou milhares de vítimas, “deixando milhões de pessoas sem casa nem meios de subsistência”. Nesse sentido, exortam a comunidade internacional a “unir-se para pôr termo à violência e ao terrorismo” e contribuir para “um rápido restabelecimento da paz civil”, para além de garantir uma “ajuda humanitária em larga escala” às populações atingidas e aos refugiados nos países vizinhos.
A ameaça de uma nova guerra mundial está presente nas preocupações dos dois responsáveis, recomendando aos países envolvidos na luta contra o terrorismo que “atuem de maneira responsável e prudente”. “Exortamos todos os cristãos e todos os crentes em Deus a suplicarem, fervorosamente, ao Criador providente do mundo que proteja a sua criação da destruição e não permita uma nova guerra mundial”, acrescentam.
O texto recorda a situação de dois líderes cristãos de Alepo, na Síria, Paulo e João Ibrahim, sequestrados no mês de abril de 2013, para pedir “a sua rápida libertação”. “Curvamo-nos perante o martírio daqueles que, à custa da própria vida, testemunham a verdade do Evangelho, preferindo a morte à apostasia de Cristo”, pode ler-se também.
Irmãos no mesmo Batismo
Após a assinatura e perante os jornalistas, o Papa afirmou que ele e Cirilo falaram “como irmãos”. “Temos o mesmo Batismo, somos bispos. Falamos das nossas Igrejas e concordamos que a unidade se faz a caminhar. Falamos claramente, sem meias palavras. Confesso-lhes que senti a consolação do Espírito neste diálogo”, adiantou.
Francisco agradeceu a “humildade fraterna” do patriarca russo e os seus “bons desejos de unidade”. “Saímos com uma série de iniciativas que penso serem viáveis e que se podem realizar”, acrescentou. Agradeceu ainda aos colaboradores da Santa Sé e do Patriarcado de Moscovo que se empenharam na realização deste encontro.
Já Cirilo disse que o encontro privado de duas horas foi uma “discussão aberta” com a preocupação pelo “futuro do Cristianismo e o futuro da civilização humana”. “Os resultados do diálogo permitem-me assegurar que atualmente as duas Igrejas podem cooperar conjuntamente, defendendo os cristãos em todo o mundo” e trabalhar para que “não haja guerra” e se respeite a vida humana.
Francisco quis ainda agradecer a “Cuba, ao grande povo cubano e ao seu presidente”, Raúl Castro, por acolherem o encontro. “Se continuar assim, Cuba será a capital da unidade”, precisou. “Que tudo isto seja para glória de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, para o bem do santo povo fiel de Deus, sob o manto da Santa Mãe de Deus”, concluiu, sob os aplausos dos presentes. O encontro encerrou-se com a apresentação das comitivas da Santa Sé e do Patriarcado de Moscovo.
Ag. Ecclesia
Separados desde 1054
Ortodoxos e católicos encontram-se divididos desde o Cisma do Oriente, em 1054, data em que trocaram excomunhões o Papa Leão IX e o patriarca de Constantinopla Miguel Cerulário; as excomunhões foram levantadas em 1965, mas as Igrejas não recuperaram ainda a unidade plena.
A Igreja Ortodoxa da Rússia é a maior desta comunhão, com cerca de dois terços dos 200 milhões de fiéis ortodoxos, tornando Cirilo, eleito no dia 1 de fevereiro de 2009, um dos mais influentes líderes cristãos.
Nos últimos tempos, na pessoa dos líderes das duas confissões, têm-se dado passos significativos. Cirilio reuniu-se com Bento XVI logo após a eleição pontifícia do agora Papa emérito, em 2005, e posteriormente em maio de 2006 e dezembro de 2007, mas no âmbito das suas anteriores funções como responsável pelas relações exteriores do Patriarcado de Moscovo.
Em 2014, o patriarca Cirilo enviou uma mensagem de felicitações ao Papa Francisco por ocasião do seu primeiro aniversário de pontificado, elogiando o “fortalecimento da colaboração ortodoxo-católica” na confirmação dos “valores morais-espirituais cristãos no mundo contemporâneo, a defesa dos oprimidos e o serviço verdadeiro ao próximo”.
Entre os temas que separam as duas Igrejas está o alegado proselitismo da Igreja Católica em territórios da antiga URSS – com destaque para a Ucrânia – para além do uniatismo (termo com o qual os ortodoxos se referem aos cristãos de países de tradição ortodoxa em união com o Papa).
A 30 de novembro de 2014, no voo de regresso da Turquia, Francisco disse aos jornalistas que tinha entrado em contacto com o patriarca Cirilo e que só a situação da guerra na Ucrânia estava a impedir o encontro.
“Já lho fiz saber e também ele está de acordo – temos vontade de encontrar-nos. Eu disse-lhe: ‘Vou aonde quiseres. Ligas-me e eu vou!’ E ele tem a mesma vontade”, relatou.
O Papa defendeu então que as Igrejas católicas orientais “têm direito de existir”, mas sustentou que “o uniatismo é uma palavra de outra época, hoje não se pode falar assim”.
