
José Arnaldo Simões fez 50 anos de padre no dia 18 de dezembro – uma vida de reconhecida generosidade, de dinamismo e criatividade pastoral.
A sessão já ia longa, passava das 13 horas, e cabiam ao Bispo de Aveiro as últimas palavras na homenagem ao P.e José Arnaldo Simões. D. António Moiteiro não se alongou. Simplesmente partilhou duas legendas da série de desenhos que as crianças do Centro Social Paroquial ofereceram ao padre que no domingo, 18, completava 50 anos de sacerdócio ministerial. Leu o Bispo de Aveiro: “O Sr. Padre Zé é muito inteligente e gosta muito das pessoas”. E a segunda: “Padre Zé, és tão importante para mim como a matemática. E eu adoro matemática!”. Terminou assim, entre sorrisos, a sessão de testemunhos sobre a vida, a obra, a pessoa do P.e José Arnaldo, natural de Lombomeão (Vagos), ordenado por D. Manuel de Almeida Trindade no dia 18 de dezembro de 1966 no Pavilhão de Desportos de Ílhavo, pároco de Calvão desde 1984.
Na sessão, que decorreu na igreja paroquial de Calvão após a Eucaristia, ouviram-se testemunhos de pessoas de Espinhel, S. João de Loure, Gafanha da Boa Hora – alguns dos locais onde o padre serviu – e naturalmente de Calvão. Ouviu-se que “nós éramos os meninos do padre e tínhamos orgulho nisso”, como contou uma senhora de S. João de Loure, adolescente nos anos da revolução democrática. Ou que o jovem padre habitava em residências paroquiais deixando a chave do lado de fora, como sinal de que estava aberta a todas as pessoas. Ou que, como contou o leigo de Espinhel, durante uns tempos trabalhou como comercial de uma empresa “para não viver da Igreja”.
Falou também o P.e Costa Leite, atual pároco de Recardães, que na década de 1970 trabalhou com o homenageado em paróquias do Baixo Vouga. “Vivemos tempos inesquecíveis. Privei com um padre inovador, de grande poder criativo, na folha dominical, nas reuniões de famílias, nas festas, que tinha a capacidade de obrigar as pessoas pensarem e a fazerem”, disse.
Antes dos testemunhos paroquiais falaram o presidente da Junta de Freguesia, Luís Oliveira, que foi colega do P.e José Arnaldo como professor no Colégio de Calvão, e o presidente da Câmara Municipal de Vagos, Silvério Regalado.
Concluindo a sessão, o P.e José Arnaldo agradeceu à sua família (a sua irmã estava na assembleia), aos bispos com que lidou, aos paroquianos, aos colegas padres… Lembrou de modo especial e agradeceu a amizade do P.e João Mónica (falecido no dia 2 de setembro de 2009), com quem partilhou muitos trabalhos no Seminário e depois Colégio de Calvão e nas paróquias vaguenses, e do P.e Georgino Rocha, com quem partilha preocupações pastorais e que não pôde estar presente por motivos de doença. Agradeceu ainda a “honestidade e frontalidade dos que discordam”. “Também assim se constrói a sociedade e a Igreja”, disse.
“Não olhem para os nossos defeitos”
Na homilia da Missa, o Bispo de Aveiro disse que celebrar os 50 anos de padre é “celebrar a história de uma vocação, a história de uma vida com os seus altos e baixos, como é próprio da vida, é celebrar o chamamento de Deus”. “Quando aqui entrei, vi na vossa igreja as maravilhas que Deus tem feito, representadas na vida do sr. padre, nas várias paróquias e aqui em Calvão”, disse, referindo-se a uma espécie de raios (cordas) que partiam dos pés da imagem de Jesus crucificado. Nas cordas estavam dependuradas os nomes e datas das paróquias por onde passou, bem como as grandes iniciativas de renovação pastoral em Calvão (do centro social aos Casais de Santa Maria, às castanhadas ou ao dia da comunidade paroquial).
D. António Moiteiro lembrou que “Deus chama para estarmos com Ele” e que a vida do padre é “bela” e “com muitos desafios”. Agradeceu ao P.e José Arnaldo, “em nome da diocese”, e deixou um apelo às crianças e jovens, numa das terras que mais padres deu à Diocese de Aveiro: “Deus vai chamando, mas estamos um pouco surdos. Vale a pena escutar, porque é um caminho de felicidade. Sede generosos. Não olhem para os nossos defeitos. Olhem para Jesus e sejam generosos na resposta”.
Jorge Pires Ferreira
“Anunciar o Evangelho é, para mim, uma obrigação” (I Coríntios 1, 16)
Durante a minha vida de padre, tive a graça de poder participar e colaborar em mudanças muito sensíveis na sociedade portuguesa que sempre procurei conhecer e acompanhar.
O entusiasmo dos primeiros anos no acompanhamento de jovens e estudantes universitários, em Sangalhos e depois em Espinhel, com os contactos iniciais com o mundo da emigração, as descobertas de reflexão dos problemas dos operários no início da revolução de 1974, em S. João de Loure e Alquerubim e, sobretudo a experiência do Projeto de Renovação Comunitária, Nova Imagem de Paróquia, vivida ao longo de vários anos em Calvão, tudo me foi ajudando a intensificar o entusiasmo de entrega aos outros. A criação do Centro Social Paroquial de Calvão marcou também uma atenção a todos, sobretudo os mais débeis e necessitados. A passagem por Fonte de Angeão, Gafanha da Boa Hora, Santo André e Ponte de Vagos e mesmo a experiência de ensino no Seminário e no Colégio de Calvão constituíram ocasiões marcantes para a minha vida.
Também as experiências, não tão profundas e duradoiras como ambicionei, em relação à emigração e às suas múltiplas facetas e problemas, constituíram desafios que, apesar de tudo, me fazem sentir um pouco mais próximo de um mundo que fui aprendendo a conhecer em diversas perspetivas e em diferentes locais da Europa.
Ao chegar à celebração de 50 anos de padre, sinto que ainda é possível olhar com mais coragem a minha vida. É isso que ainda quero estar disponível para oferecer.
Obrigado a todos os que, de algum modo, foram fazendo parte da minha vida. Ao longo do tempo, todos me foram ajudando a construir a essência da minha personalidade, do meu ser e da minha existência. Com eles, a minha aprendizagem da vida também se foi intensificando e a minha entrega a Deus se foi aprofundando.
Parece que à medida que as forças já vão faltando e as capacidades diminuindo, mais se vai concretizando a sensação de que ainda haverá mais algum testemunho para oferecer a quem o quiser aceitar. Nunca é demasiado tarde para mudar e recomeçar.
José Arnaldo
