Questões Sociais Quase toda a gente proclama que precisamos de «soluções de fundo» para os graves problemas do país; e supõe-se que bastará a alteração das políticas vigentes para que surjam tais soluções; infantilmente, dá-se a entender que o Estado português detém, ou devia deter, todo o poder necessário para a solução de todos os problemas; se os não resolve é porque não quer ou, querendo, não está à altura das suas responsabilidades. Comentadores, economistas, sindicalistas, empresários e todos os grupos contestatários consideram tão má a situação que se dispensam de apresentar propostas quantificadas e realistas; pouco vão além de defenderem a mudança pela mudança, esquecendo que esta, assim, é uma forma eficaz de tudo ficar na mesma, embora com troca de papéis.
O caminho sadio para as soluções efectivas situa-se na «terra de ninguém», entre dois extremismos derrotistas: o social e o económico. O primeiro baseia-se no pressuposto de que os recursos financeiros são, ou devem ser, ilimitados; consequentemente, a situação de crise deverá suscitar, não a limitação de direitos sociais, mas sim o seu aumento; nesta perspectiva, quanto mais direitos se consagrarem mais se força a mudança e, desejavelmente, a substiuição do sistema capitalista. O extremismo económico, sem sensibilidade social, entende que devem ser feitos, no Orçamento Geral do Estado, os cortes necessários para se garantir o equilíbrio das contas públicas e se promomer o desenvolvimento do país. Neste confronto de extremismos, o clima dominante é de guerra civil subliminar, em que nos vamos afundando; guerra que vai sendo atenuada, ou disfarçada, através do diálogo possível e das imposições externas provenientes dos mercados, da União Europeia, do Fundo Monetário Internacioal ou de outras instâncias.
O diálogo cooperante, como saída recomendável para a crise, é uma actividade muito exigente, que requer, nomeadamente: o respeito de outrem; a sabedoria de ouvir; a de falar; e a de concluir, quaisquer que sejam os resultados, mantendo sempre as pontes de relacionamento. E é indispensável que ele aconteça em todos os níveis: órgãos de soberania, parceiros sociais, entidades académicas, centros de investigação, sectores económicos, entidades locais, famílias… Nenhum de nós está isento de responsabilidades; nenhum tem o direito de «atirar a primeira pedra».
