A Àrvore de Zaqueu Na verdade, até as deixamos caídas, as mais das vezes. Seja por cansaço, seja por preguiça, seja porque achamos que não vale a pena fazer nada… Outras vezes porque nos sentimos sós, sem alguém que nos anime a levantar os braços.
Outras vezes, levantamos as mãos e pomos os olhos no céu, de tal maneira parece inconcebível aquilo que vemos ou ouvimos…
O curioso é que qualquer destas formas de levantar as mãos se relaciona com trabalho ou é um pedido de ajuda para compreender o que se passa e saber agir em conformidade.
E os textos de hoje quase nos fazem levantar as mãos de espanto: Moisés acha que Deus só o ajuda e ao seu povo se lhe vir as mãos bem erguidas ao alto, mesmo que pareça um truque de magia… Como se Deus pudesse ser chantageado ou tivesse «filhos e enteados».
Jesus Cristo conta a história da viúva injustiçada por um juíz iníquo, mas que tanto e tanto importunou o juiz que este, para se ver livre dela, lhe deu um despacho favorável. Seria tão bom que ao menos essa justiça fosse garantida nesses tempos como nos tempos de agora…
É estranho como a humanidade tem levado tanto tempo a deixar de ver em Deus um parceiro das políticas de destruição dos «inimigos». Ainda hoje facilmente vestimos Deus com as bandeiras nacionais…
Quanto ao evangelho, não é verdade que Deus parece tão longe das nossas orações, nomeadamente daquelas mais desinteressadas, pela paz, pelo amor entre os homens – como Jesus queria mais que tudo?
Desta vez, é S. Paulo que parece falar mais claro: «Ensina, corrige, forma segundo a justiça» e «com toda a paciência». As mãos que trabalham são as mãos que rezam, dizer a verdade já é vencer – mas mesmo aqui, não basta o saber, é preciso muita paciência. E a paciência, como tudo o que é bom, tem que ser cultivada em comunidade.
A oração é a maneira correcta de «levantar as mãos», de tomar consciência de que nunca estamos sozinhos, e que há sempre alguém a nosso lado para nos ajudar quer a bater palmas, quer a pedir ajuda, quer a cumprir o ditado de que «o trabalho do menino é pouco mas quem o despreza é louco»…
A oração é o acto humano mais presente na espiritualidade de todos os tempos e religiões. É aquele que mais pode dignificar o ser humano, pois nos unimos não só pelas nossas fraquezas como pela força de «criados à imagem de Deus».
Toda a Bíblia é a oração de um povo que tanto foge como procura a Deus, atordoado com a mistura do que é humano e divino – uma experiência difícil de ser pensada, e ainda mais difícil de traduzir na nossa vida em que se misturam guerras, crimes, amores e poesia. Lendo hoje os passos estranhos da Bíblia, lemos como é que nos temos havido com o Deus que se quer juntar a nós, sem violentar a nossa liberdade e entrando na roda das alegrias, prazeres e frustrações.
Uma das grandes limitações é o cansaço, que pode corroer a esperança. Talvez seja esse o sentido da pergunta de Jesus: será que nós mantemos a nossa fé, apesar do silêncio de Deus, por muito que Ele prometa que nos ouve? Quantas gerações inteiras morrem sem gozar, aparentemente, da experiência da paz e da justiça? Onde está a resposta de Deus? Será mesmo verdade que «Deus dá o frio conforme a roupa»?
É misterioso o encontro de Deus com os seres humanos, mesmo antes da nossa morte. E Jesus lembra que é difícil manter ao alto as mãos da fé, isto é, continuar sempre prontos a agir.
Jesus morreu sem sentir o apoio nem dos apóstolos nem de Deus na crueza dos momentos finais da vida. Mas não se cansou de olhar para Deus como um Pai.
Talvez seja uma lição de Moisés: inventar «técnicas» para nos mantermos atentos a uma visão do mundo menos parcelar ou egoísta e mais capaz de englobar a incómoda diversidade das posições humanas. Sobretudo nos grandes momentos da vida, a oração, mesmo só do ponto de vista psicológico, concentra toda a energia espiritual, aumentando a própria resistência corporal. Mas, mais do que isso, dá-nos um pouco da perspectiva divina, só ela capaz de dar sentido ao que parece sem sentido. Só ela capaz de nos fazer sentir «filhos», por muito que o Pai pareça ausente.
E como filhos livres, até podemos aldrabar um bocadinho «o Padre Nosso»: Acreditamos que és Pai e desejamos o teu «reino», embora frequentemente não percebamos o que isso quer dizer; anima-nos a levantar as mãos para que a justiça se vá realizando; e quando a gente se distrai, não te escondas muito e aumenta a nossa sagacidade e coragem para escolher o bem.
Manuel Alte da Veiga
