Armor Pires Mota lança no dia 19 de Novembro (sexta-feira), às 21h, na Livraria Bertrand (Fórum Aveiro), o romance “Estranha Noiva de Guerra”. O autor combateu na Guiné-Bissau em 1963-65, tendo relatado as suas vivências militares, “ao vivo”, no “Jornal da Bairrada”, no que terá sido caso pioneiro na imprensa portuguesa. Armor Pires Mota foi jornalista do “Soberania do Povo” e chefe de redacção do “Jornal da Bairrada” de 1989 até 2007, semanário com que ainda colabora. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – Escreveu os livros “Tarrafo”, “Guiné, Sol e Sangue” e “A Cubana que dançava Flamenco”, além do que agora vai lançar, com a guerra como tema de fundo. É assunto recorrente na sua escrita?
ARMOR PIRES MOTA – Uma das razões é que, de um modo geral, o grande lastro da minha escrita, ligada à ficção, é feito de vivências próprias e muito mais das que vou conhecendo, todos os dias. E a guerra foi, sem dúvida, uma vivência dolorosa, uma cicatriz que sempre sangra palavras. Embora sem raiva ou complexos. Depois, é juntar-lhe um pouco de ficção e de enredo. Uma estória pode trazer dentro muitas outras estórias. Este é o que eu chamo “ciclo da guerra”.
Neste “Estranha Noiva de Guerra”, reporta-se ao tempo em que foi militar na Guiné, em 1963-65?
Exactamente. Para escrevê-lo, reportei-me às minhas vivências e às de muitos outros, ao sofrimento alheio, aos sacrifícios e sobressaltos de tantos, de milhares, também a certas peripécias. Digamos que aqui estão em resumo as salgadas lágrimas de uns, as feridas profundas ou mais ligeiras de outros e a morte de alguns, com quem sempre morremos um pouco e chorámos a sua falta nas noites, dentro no silêncio intranquilo da caserna ou do mato medonho, nunca conquistado.
Quem é a personagem maior do livro?
É Bravo Elias, que representa muitos dos que, um dia, tiveram de haver-se com o perigo, o inesperado. Por isso, todos os combatentes que lerem o livro, hão-de reconhecer-se nesta ou naquela situação, frágeis, destemidos, temerosos, apaixonados. Seja qual for o lugar: a Guiné, onde se desenrola a acção, mas pode alargar-se a outros campos de guerra. Para ser tão verdadeiro como a “Estranha Noiva de Guerra” o é, direi que todo o livro é uma larga metáfora ao fim do império português. Toda a viagem com o Perdiz às costas ou em padiola, depois que surgiu a Mariama, quer significar isso mesmo, o fim. Toda a paixão que se desenrola, ao longo de muitas horas, entre os dois, um soldado português e uma guerrilheira, é um adeus à África. Bravo Elias tem mesmo essa percepção de um adeus difícil e doloroso, quase patético.
O sr. foi pioneiro, relatando quase em directo a guerra colonial no Jornal da Bairrada. Mas só agora, passados mais de 30 anos, surgem vários romances sobre a guerra nas ex-colónias. Já não é tão doloroso recordar?
Se o primeiro livro de crónicas, “Tarrafo”, escritas sobre o sangue da hora e o medo de todos os caminhos armadilhados, é o testemunho feito em directo, todos os outros não deixam de o ser também. Só assim se fará a história inteira de uma guerra que a minha geração foi obrigada a travar, escrita por quem sofreu e amou aquelas terras. Nós não podemos deixar que sejam outros, que nunca combateram, a inventar guerras ou a escrever sozinhos a história. Sobretudo, não podemos deixar morrer mais uma vez os que carregámos às costas, feridos ou mortos, os que foram valentes e os que foram medrosos. Todos estarão num abraço de eterna camaradagem, um dos valores que nos sobrou e muito prezamos.
O amor é traço marcante deste livro? Romance de armas e de paixões?
Este mesmo tema (ou tese, já não sei) vem à mão do leitor no romance “A Cubana que dançava Flamenco”, que tem muitos pontos de contacto. Aqui o herói, uma vez aprisionado pelo IN [inimigo], tenta fugir ao fragor das armas e da guerra pelos mesmos trilhos. Só o amor redime e salva. Até das guerras, quase sempre inúteis.
Quando fala de amor, o sentimento tem vários sentidos: amor por uma mulher, amor pela terra, África, amor até pelos inimigos, algo tão cruel se de afirmar num contexto de guerra…
O amor não pode faltar. A África sempre apaixona, raramente se detesta. Não, não podia faltar, não tanto o amor pelo amor, gratuito e fortuito, mas sobretudo, pelo que isso significa de perdão cristão e de via para resolver conflitos do género. As armas nunca podem ter a força do amor, que é a melhor via para um mundo mais perfeito, partilhado e fraterno.
Restam-lhe traumas e ódios por causa da guerra?
Apesar de tudo o que passei, vi e sofri com os outros e pelos outros, não me restaram traumas ou ódios. Nem ao IN. Aliás, isso pressente-se em todos os livros que escrevi, fossem crónicas, contos ou ficção. Pelo contrário, de certo jeito, fiquei a gostar daquela terra e daquela gente e só tenho pena é que, alcançada a independência, não tenha evoluído no melhor sentido: melhores condições de vida, algum desenvolvimento.
Referiu o “ciclo de guerra”. Que outro ciclo há na sua escrita?
Eu costumo dizer que o outro é o ciclo da terra, que engloba a monografia, o levantamento cultural ou histórico de várias terras, e até o conto na medida em que tem dentro terra e gente próximas.
O que é que lhe dá maior prazer escrever?
Cada obra tem a sua medida, que nunca é bem cheia como seria nosso desejo. Gosto do que faço e isso já é uma boa paga, mas dá-me um gosto especial a descoberta de tanta coisa e a sua mostragem pública. É outro tipo de missão. Aqui faço sempre os trabalhos como um serviço a prestar à comunidade, seja ela qual for, numa tentativa do resgate da memória colectiva.
