“Não é hora de regredir; é hora de transgredir”

A metáfora da luz conduziu D. António Couto na reflexão sobre o futuro do mundo. A verdade e o sentido vêm de fora. Precisamos de uma nova aurora.

“Estamos num tempo novo em que temos de ir à frente. Vai-se à frente evangelizando. Motivados. Pró-activos e não reactivos. Viramos o mundo do avesso se mudarmos os corações, as mentes, as cabeças. Somos irmãos. O que fazemos com esta fraternidade? É tempo de nos posicionarmos de forma diferente”.

D. António Couto terminou em chave cristã-missionária a sua reflexão sobre o futuro do mundo actual. Falou a convite do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro (ISCRA), no Centro Universitário Fé e Cultura (CUFC), na noite de 3 de Novembro. O salão encheu-se para ouvir o Bispo Auxiliar de Braga e presidente da Comissão Episcopal para as Missões.

O que terminou com apelos à missão foi tecido com linhas bíblico-filosóficas. A reflexão tão depressa invocou o profeta Isaías como apelou ao sociólogo polaco Zygmunt Bauman, lembrou a judia alemã, carmelita, Edith Stein ou remeteu para Rosmini, um teólogo cujo pensamento, após a sua morte, em 1855, foi condenado pela hierarquia católica, mas que hoje é visto como tendo sabido fazer uma aproximação entre a cultura e o cristianismo.

D. António Couto notou que a Modernidade (últimos séculos) foi o tempo das luzes. Uma das suas fases ficou conhecida precisamente por “Iluminismo” (séc. XVII-XVIII). “Ousar saber” era o mote. A razão humana queria “ser independente de qualquer vínculo”. Porém, a “radical obra de demolição dos obstáculos” empreendida pela razão iluminista desembocou na “redução de tudo ao «eu» e ao mesmo, o que só produz solidão”. O homem moderno, que decretou a “morte de Deus”, é um homem só.

Seguiu-se a “metáfora de noite ou a pós-modernidade”, que é o tempo em que nos encontramos. Agora o ser humano é como que o pequeno grupo que se salvou do navio naufragado e sobrevive numa jangada. Diz o Bispo Auxiliar de Braga sobre o homem contemporâneo: “Pequenos grupos de amigos, individualmente juntos mas fechados nos pequenos rituais e com um vocabulário correspondente. Nacos de solidão (…). E é logo noite. Estamos na noite do mundo, no tempo do exílio. Insensíveis. Sem causas. Sem sonhos nem utopias, num tempo atomizado a que se chama momento. Vive-se num instante, sem passado nem futuro. Tábua solta, à deriva, sem salvação, como reflectia o filósofo italiano Gianni Vattimo”.

Não há esperança? A seguir à noite vem a aurora, a “luz que vem de fora”. Em vez do “cogito, ergo sum” (“penso, logo existo”) da modernidade, vale o “amor, ergo sum” (“sou amado, logo existo”). “Sair é nascer. O «tu» vem antes do «eu»”, disse, citando Emanuel Mournier. No novo tempo, a verdade não está centrada no sujeito (racionalismo), mas é antes “desocultamento, desocultação”. É “acolhimento com espanto, alegria e reconhecimento”. Por isso, o prelado convidou a pensar a partir da morte e do nascimento (“irmão, nasce-se; a fraternidade só se recebe; reconhece-se”), a não cair na ilusão de “trocar o fim último pelo penúltimo”.

No final, antes do apelo que inicia este texto, D. António Couto convidou à transgressão: “Não é hora de regredir; é hora de transgredir, dar um passo em frente”. Não apelava certamente à anarquia, mas antes à insatisfação com a ordem presente, as vistas curtas, os horizontes limitados, o acomodamento. Lembrou por isso o epitáfio de Ernst Bloch, «Pensar é transgredir», contou a fábula da tartaruga que morre de patas para o ar, mas ao menos vê as estrelas, e lamentou a situação daquele que “é tão pobre, tão pobre, tão pobre que só tem dinheiro”. Mais um autor, para terminar, Julien Green: “Enquanto estiverdes inquietos, podeis estar tranquilos”.

As conferências intituladas “Tertúlias à quarta” prosseguem no dia 1 de Dezembro com o padre e filósofo Anselmo Borges. O tema é: “Que actualidade tem hoje Jesus Cristo?”

J.P.F.