Superação de antinomias

Questões Sociais Como se referiu em artigos anteriores, a superação de antinomias é uma caraterística forte da encíclica de Bento XVI, «Caritas in Veritate». Do conjunto de antinomias a superar, segundo a encíclica, realço: economia e solidariedade; produção e distribuição; e justiça e gratuidade.

Segundo o pensamento dominante, existe incompatibilidade invencível entre economia e solidariedade. A encíclica, pelo contrário, afirma que: «é possível viver relações (…) de solidariedade e reciprocidade, mesmo no âmbito da actividade económica e não apenas fora dela ou «depois» dela» (nº. 36).

O mesmo pensamento dominante defende que se deve, primeiro, produzir, e, depois, distribuir; defende, na mesma linha, que incumbe à economia produzir e, ao Estado, distribuir. A encíclica afirma, pelo contrário, que «os cânones da justiça devem ser respeitados desde o início, enquanto se desenrola o processo económico, e não depois ou marginalmente» (nº. 37).

O pensamento dominante apresenta a justiça e a gratuidade como realidades separadas. A encíclica, pelo contrário, proclama que «sem a gratuidade não se consegue sequer realizar a justiça» (nº. 38).

É possível, na prática, a interligação – ou, segundo a encíclica, a «hibridização» (nº. 38) – entre economia e solidariedade, produção e distribuição, justiça e gratuidade? – Podemos responder com duas verificações e um imperativo. Primeira verificação: a tendência dominante vai exactamente no sentido contrário; as forças económico-financeiras actuam no sentido da separação, e as forças político-sociais acabam por fazer o mesmo jogo, na medida em que não consideram possível a mudança. Segunda verificação: abundam as experiências de interligação registadas em muitas empresas e em organizações sem fins lucrativos. Tais empresas cumprem a legislação, orientam-se pela ética, promovem a participação no seu interior, procuram efectuar uma distribuição justa de rendimentos, e assumem outras responsabilidades sociais; por outro lado, algumas entidades sem fins lucrativos procuram interligar os seus objectivos sociais com a solidez económica, em termos semelhantes às empresas. Neste sentido vêm actuando várias instituições sociais, as iniciativas de desenvolvimento local, a economia social e solidária…

De tudo isto decorre um forte imperativo, dirigido especialmente aos cristãos leigos; trata-se do imperativo de intensificarem o esforço de humanização da ordem terrestre, em todos os domínios, preservando a consistência económica.