“Caridade na verdade”:: o antídoto contra o veneno que corrói o homem

1. Caridade na verdade? – Quando, em 29 de Junho, foi anunciada ao mundo a terceira encíclica de Bento XVI, muitos foram os que tomaram como engano o título anunciado, pois parecia que o Papa se distraíra, citando mal Paulo, na sua carta aos Efésios, onde o Apóstolo exorta a que proclamemos a verdade na caridade (Ef 4, 15). Porém, este aparente engano não só não o é como resulta de uma intencional provocação, em tempos marcados pelo ‘tudo vale’ por ‘nada valer’, tempos de relativismo, de ausência de busca da verdade. Com efeito, estes não são os tempos em que a lei, a intocabilidade da verdade eram as notas definidoras do agir social, colectivo e mesmo individual, onde se exigia o apelo a à capacidade de exortar à verdade com uma humana e cristã capacidade de compreensão. Os tempos são outros. A força e irredutibilidade da verdade deu lugar à ditadura da opinião, à desertificação da ética e da moral, aqui e ali ponteada por efémeros oásis de apelo à ética na vida pública, que logo caducam porque não correspondem a uma autêntica exigência de respeito pela verdade do homem, da sua dignidade e da razão de ser da sua existência, neste mundo.

Neste quadro, justifica-se que Bento XVI apele à vivência da caridade (o nome mais genuíno para ‘amor’) na verdade, pois, ‘sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo’ (3). Esta afirmação densa de significado é confirmada pelos processos em curso de redução da dignidade humana à condição de ‘não mais do que animal’, de que resulta a defesa de tudo o que atenta contra o respeito intocável pela sacralidade da vida inocente. Veja-se, a título de exemplo que é em nome de um sentimentalismo (uma suposta compaixão) que se avoluma a onda dos que dizem defender a eutanásia, como se esta fosse legítima e respeitadora do humano. É por perda da consciência da verdade do humano que tal defesa se considera sustentável.

2. A verdade, em sociedade – O mesmo Bento XVI afirma, mais adiante, que ‘sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a actividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo, numa sociedade em vias de globalização, que atravessa momentos difíceis como os actuais.’ (5). A rudeza da crise actual, que não pode ser apenas atribuída a uma simples crise do mercado, mas a uma séria falta de verdade de que redundou uma crise de confiança, é confirmação quase científica desta afirmação.

3. A raiz de todas as crises: A verdade de quem é o homem – Os estudiosos da teologia de Ratzinger (agora Bento XVI) são quase unânimes na consideração de que o combate contra o relativismo (a visão que tudo reduz à condição de simples opiniões, sem qualquer possibilidade de certeza e firmeza) define todo o seu pensamento e agir. E assim é, com efeito. Bento XVI percebeu que o drama da humanidade, nos nossos tempos, resulta daquilo a que o grande Henri de Lubac chamava o ‘drama do humanismo ateu’: o homem pretende construir-se a si próprio sem respeitar a verdade de si mesmo. Isto está, aliás, nos opostos do que a própria revelação anuncia: antes de nasceres, ‘Eu sou’. Tal afirmação é reservada a Deus, pois só Ele é. O homem, pelo contrário, encontra a razão do seu ser, não em si mesmo, mas na verdade de Deus. Nesse sentido, pode entender-se o que Bento XVI afirma: ‘Sem verdade, cai-se numa visão empirista e céptica da vida, incapaz de se elevar acima da acção, porque não está interessada em identificar os valores – às vezes nem sequer os significados – pelos quais julgá-la e orientá-la’ (9).

Com efeito, este é um diagnóstico que, de tão certeiro e profundo, chega a rejeitar-se por parecer óbvio. Contudo, a genialidade está mesmo aí: em desvendar aquilo que está à vista de todos, mas ninguém quer tomar em mãos. O relativismo, a ditadura da opinião, a ditadura de ‘tudo valer o mesmo’ vem conduzindo, pouco a pouco, à ditadura do nada valer.

Em resposta a esta visão da existência humana, o Papa propõe, não uma utopia que resultasse do esforço humano, mas a esperança que parte da confiança da salvação concedida, antecipadamente, em Jesus Cristo, mas da qual cada homem é convidado a participar. Só à luz desta entrega que respeita cada homem e o homem todo, é possível pensar-se um verdadeiro desenvolvimento humano, que não é fragmentário (só toma partes do homem, só o desenvolve em uma ou várias dimensões: económicas ou culturais ou científicas ou outras…), mas integral. ‘A verdade do desenvolvimento consiste na sua integralidade: se não é desenvolvimento do ser humano todo e de toda a pessoa, não é verdadeiro desenvolvimento’ (18).

Esta é uma carta escrita a todos os homens que continuam a acreditar que a humanidade ainda é possível e que não desistiram de procurar a verdade de quem é o ser humano, contra todas as concepções que pretendem a redução do humano ao efémero, à caducidade do tempo. Não é uma carta contra ninguém. É a favor de alguém – o humano -, mas em oposição a visões redutoras da condição humana. Uma ode à esperança!