Notas Litúrgicas

A “Memória Litúrgica” Rever, corrigir, melhorar alguns dos nossos comportamentos em liturgia é uma necessidade que se impõe constantemente. Um dos aspectos que necessita de uma urgente e corajosa, para não dizer radical conversão dos nossos grupos corais, é a da atenção ao repertório para cada semana e para cada missa. Porque aqui, há erros em excesso que necessitam de ser corrigidos: há grupos que mudam todos os domingos todo o repertório de cânticos; há, porém, outros, sobretudo os de jovens, que mantêm, ao longo de todo o ano, os mesmos cânticos até à saturação. Uns e outros e, sobretudo, os seus responsáveis, terão neste artigo de Rembert Weakland, matéria suficiente para uma reflexão madura sobre o assunto.

«Necessitamos de uma memória litúrgica se se quer que os símbolos litúrgicos, incluída a música, sejam eficazes. Como membros da Igreja pelo Baptismo, temos parte numa herança que começa com o evangelho, mas que não exclui o Antigo Testamento. O evangelho orienta a celebração à volta do mistério pascal: morte, ressurreição e glorificação de Jesus Cristo e o envio do Espírito Santo. A nossa memória colectiva acrescenta-lhe toda a história da salvação, passada e recente.

«A música empregada pela Igreja realça a memória colectiva, na qual a repetição do símbolo é uma parte muito importante. Parece que isto vai contra a cultura ocidental, mas a repetição do mesmo símbolo é importante para a liturgia.

«Em que mundo mais estranho nos encontraríamos se cada domingo se mudasse tudo. Muitos gostam de fazer isto. Graças a Deus, é economicamente impossível. Tenho a impressão de que mudamos de música demasiado frequentemente. É um pouco como se quiséssemos satisfazer a nossa necessidade de mudar na música porque não podemos fazê-lo com a estrutura nem com o conteúdo. Mas isso seria liturgicamente desastroso. Mudamos demasiado amiúdo de música na liturgia. É frequente que cada peça cantada numa confirmação, no aniversário de uma igreja ou em qualquer outra celebração, tenha sido escrita só há cinco ou dez anos. Há tal quantidade de versões diferentes das aclamações e das partes dialogadas da Missa – o Santo, o Cordeiro de Deus, o Aleluia –, que não é possível já nenhuma memória colectiva.

«Todos abemos que a canção de aniversário “Parabéns a você” tem que ser cantada. Inclusivamente o que não tem nada de ouvido encontrará aproximadamente a melodia. Neste exemplo, as palavras e a música estão realmente unidas. Mas, que aconteceria se existissem versões diferentes do “Parabéns a você”? O caos, seguramente. Pois, é o que acontece para as partes repetidas dos nossos ritos.

«Não só há uma memória colectiva: existe também uma memória pessoal. Na realidade, a memória pessoal e a colectiva não deveriam ser mais que uma. Por exemplo, as pessoas recordam-se sempre do que se cantou no seu casamento, enquanto que a homilia a esqueceram há tempo. Recordam-se do que se cantou no funeral dos seus pais. Estas recordações pessoais unem-nas constantemente à liturgia e evocam-lhes importantes acontecimentos religiosos, espirituais e litúrgicos da sua vida.

«Nós começamos a estar a gosto na liturgia, quando se tornam familiares os símbolos e a música que se emprega. O coro e o solista podem cantar todas as novidades que queiram: mas que se permita ao povo de Deus cantar o que lhe é familiar, o que lhe é tradicional, o que enche a sua memória colectiva e pessoal.

«É importante igualmente que os símbolos acompanhem o Ano Litúrgico. Dever-se-iam esperar com impaciência os símbolos do Advento, de Natal, da Quaresma e da Páscoa, tanto ao nível do canto como da imagem. Quando se cantam os aleluias da Páscoa durante o ano, destrói-se a memória litúrgica colectiva da Páscoa».

SDPL