Uma pedrada por semana Passei. Foi pelo metropolitano. Mil recomendações sobre o que não podia fazer. Não podíamos conhecer senão o pequeno grupo de que fazíamos parte, um levava um sinal por que seríamos reconhecidos por alguém que nos esperava com um automóvel, não perguntávamos nada a ninguém, entraríamos com uma quantia irrisória cambiada à passagem e deixaríamos, obrigatoriamente à saída, o que nos restasse. Era tudo porque não se via onde se pudesse comprar o que quer que fosse. A vistoria pessoal à entrada foi demorada. Metia observação cuidada, nas mais diversas posições, num corredor anguloso, em que ninguém via ninguém, a não ser o inspector. O bispo da diocese, Cardeal Bench, era bispo de um lado e de outro da cidade e da diocese divididas pelo muro. Vivia na zona comunista e tinha de requerer, com antecedência, licença de passagem ao outro lado, só concedida algumas vezes, poucas, por mês…
Eu era um bispo ainda a cheirar a novo. Tudo aquilo me impressionou. Fui a Berlim, estávamos por aí em 1978 ou 79, para participar, com as Cáritas de todos os países da Europa, num encontro em que se reflectia sobre as novas formas de pobreza. Encontrei mais uma, a da pobreza de liberdade.
A recordação de tudo avivou-se, agora que se falou do muro e do aniversário da sua destruição. Fez-me pensar que, apesar de tudo, há muros de então, que persistem ainda hoje. Os muros do egoísmo, dos preconceitos, dos ódios, da ganância, do orgulho…
E quantos mais, santo Deus!
O mundo globalizou-se, todos estamos mais perto de todos, mas não mais irmãos. As divisões persistem sempre, quando se aninham no coração e aí apodrecem, porque não houve amor que as derrubasse.
Quando é que se toma a sério a história, como mestra de vida?
