Que liberdade?

O exemplo vem da Igreja Ortodoxa. “O primaz da Igreja ortodoxa grega, Ieronymos II, declarou-se disposto a convocar um Sínodo extraordinário para desenhar um plano de acção contra a recente sentença do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos que veta o crucifixo nas escolas”.

E tem razão na sua argumentação. Se as minorias têm direitos, por que não as maiorias? De facto, a liberdade de cada um não acaba onde começa a liberdade do outro; antes, cresce quando faz crescer a liberdade do outro. A tolerância não é o suportar sofrido e passivo da diversidade do outro. É, pelo contrário, o acolhimento positivo da liberdade do outro, integrando as diferenças num mútuo enriquecimento.

O que está subjacente a tudo isto – e temo-lo dito insistentemente – é um projecto civilizacional que se propõe substituir um conceito de liberdade como “um meio para se poder atingir a excelência e a felicidade humanas”, pelo esforço da inteligência e da vontade, por um outro conceito de liberdade, a “liberdade de ser indiferente”, fruto de uma nominalista visão atomizada do ser humano e da sociedade.

Na prática, nessa visão, o bem comum, como um compromisso interpessoal, como uma teia de relações que nos implicam uns com os outros, não existe. A ilusão do bem comum será apenas a regulação das fricções entre pessoas e grupos, como protecção ao “projecto de autonomia”, traduzido, segundo Nietzsche, numa relação com os outros apenas de poder.

Neste sentido, podemos concluir com G. Weigel: “Se a teimosia é tudo e a liberdade é simplesmente a ‘nossa’ própria reivindicação (uma reivindicação protegida pela lei desde que ‘não prejudique ninguém’), então é muito difícil, se não for impossível, perceber por que razão essa liberdade tem qualquer valor, para além da expressão da nossa vontade. E este parece-nos um alicerce muito frouxo para construir uma civilização democrática capaz de se suster internamente e perante os seus inimigos”.

Então, estamos à beira de uma ditadura? Não! Já estamos sob a sua pressão esmagadora! Se deixamos que o machado corte a raiz ao pensamento, que a anomia debilite a vontade!… Quem espevita a luz que vive no pensamento?…