É tempo de acordar para a luta e promoção do Bem Comum

Dar em duas páginas de jornal uma imagem fiel de um encontro que durou três dias, incluiu cinco grandes comunicações mais seis em grupos menores, três comunicações de bispos (incluindo a homilia da Eucaristia que encerrou a semana social) e cerca de 60 questões lançadas em plenário não é só demasiado ambicioso. Terá também menos efeito. Ora, efeito, consequências, acção, é o que se quer que a semana social tenha.

Na abertura das jornadas, o Bispo de Aveiro, D. António Francisco, afirmava:

“Nesta Casa Municipal que nos acolhe, o belo Centro Cultural da nossa cidade, outrora fábrica onde da argila das nossas terras nascia a cerâmica sóbria e frágil que a arte e o engenho humanos transformavam em elementos robustos e resistentes das nossas construções, somos hoje chamados a reflectir e convocados a trabalhar na construção do bem comum. Queremos construir (…) com pedra nova, com madeira sã e com linguagem transparente. O bem comum não se pode hipotecar a interesses transitórios de grupos ou a hábeis e ocultos oportunismos de privilegiados. É responsabilidade da Pessoa, da Igreja e do Estado transformar a argila humana, vulnerável e quebradiça, em pedras novas, de firme e sólida construção. Ao engenho individual de cada um urge juntar a solidariedade e a relação entre todos”.

Ficou dado o mote.

No final, D. Carlos Azevedo, presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, entidade responsável pela organização da semana (a logística esteve a cargo da Cáritas de Aveiro), afirmava: “A semana social só teve uma parte, a da reflexão. Importa agora a da acção”. E aos jornalistas acrescentou: “Esta semana foi um acto de pedagogia para que não caiamos nem no desespero fatalista nem no individualismo de cada um. Oxalá que todas as dioceses formem bons líderes que multipliquem a reflexão”.

Pelo meio, foram proferidas comunicações interessantíssimas que obterão mais eco neste jornal nas próximas semanas.

Barbosa de Melo realçou que os últimos dois Papas são as personalidades que mais têm defendido o bem comum. “Já dizem há muito: «Yes, we change». «Yes we can»” (“Sim, nós mudamos”. “Sim, nós podemos” – slogans celebrizados por Obama).

D. José Policarpo observou que há “forças ateizantes” que pretendem “neutralizar a religião”.

Maria Lúcia Amaral defendeu que os direitos sociais (trabalho, saúde, educação…) não podem separar-se dos direitos, liberdades e garantias (direito à vida, liberdade de expressão, de reunião, religiosa…) e que os deveres estatais não devem iludir a responsabilidade última dos cidadãos, nem que seja, justamente, para lembrar as obrigações do Estado.

António Matos Ferreira notou que nunca houve – nem há – sociedade sem religião. A religião não desaparece – desloca-se. “A laicidade não é redutível ao exterior da comunidade cristã, joga-se constantemente no seu interior”, disse, o que transfere claras responsabilidades para os protagonistas eclesiais, leigos e clero: constante atitude de estudo, vida quotidiana de oração; vida de serviço aos outros. A laicidade “contraria a lógica clerical”.

Ludgero Marques, no domingo de manhã, denunciou que a economia vive “uma autêntica canibalização”, porque “as empresas tentam apanhar as encomendas de forma muito agressiva” e há empresários que se comportam “como abutres”, à espera que uma empresa entre em falência para se apoderarem dos seu bens, mas referiu também a importância da educação (principalmente até ao 12.º ano, para que estes trabalhadores exijam quadros com mais formação) e deixou uma ideia que disse já ter transmitido a políticos, mas que ainda não obteve ecos: seria possível criar em pouco tempo 250 mil postos de trabalho. Bastaria um programa de reabilitação urbana e de construção de habitação social que ocupasse cinco trabalhadores em cada uma das 50 mil habitações. As contas estão feitas e o empresário e antigo presidente da AEP promete insistir junto do poder político.

Na Sé de Aveiro, D. Jorge Ortiga, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, em dia de Cristo Rei, iluminou a acção dos fiéis e concluiu a semana social: “Recordamos, ainda, o compromisso, através duma interpretação literal, para que Cristo reinasse verdadeiramente em todos os ambientes, exigindo uma militância organizada e realizadora de actos tendencionalmente triunfalistas. A partir da comunidade o mundo deveria ser conquistado”, mas os tempos mudaram. “Hoje sabemo-nos e orgulhamo-nos de ser cidadãos no mundo com um projecto especificamente dominado pelo amor. (…) O triunfalismo desaparece mas o Seu espírito vivifica e gera uma sociedade pautada por critérios de igualdade e dignidade de todas as pessoas humanas com a consequente experiência de fraternidade universal. E daí que o caminho da Igreja deve ser uma consciente proclamação da verdade do amor de Cristo na sociedade. (…) O hoje de Portugal e do mundo está a solicitar menor triunfalismo por parte da Igreja, mas maior empenho e presença nas realidades terrestres. A nossa demissão permite que outro modelo da sociedade avance. Não temos consciência disto? É tempo de acordar para a luta e promoção do Bem Comum”. Estava encerrada a semana social. Mas como se afirmou, apenas a primeira parte.

Jorge Pires Ferreira