Pequena história da grande história* João XXIII, o Papa que convocou o II Concílio do Vaticano e que, quando era Patriarca da Veneza, gostava de dar longas caminhadas pela cidade dos canais ao encontro das pessoas comuns, quis manter o mesmo hábito no Vaticano. Mas no micro-estado era mais difícil encontrar pessoas comuns. Ou saía para as ruas de Roma – o que era impossível fazer sem um longo séquito – ou passeava no interior do próprio Vaticano, confrontando-se quase sempre com “eminências”.
O hábito desconcertante que o novo Papa tinha de conversar com toda a gente chamou quase de imediato a sua atenção para um escândalo.
Um dia perguntou a um trabalhador do Vaticano: «Então, como vai isso?» «Vai mal, vai mal, Vossa Eminência», respondeu o homem, dizendo-lhe quanto ganhava e quantas bocas tinha para alimentar. «Temos que tratar disso. É que aqui entre nós, eu não sou Vossa Eminência, sou o Papa», disse, dando a entender que os títulos pouco valem, ao contrário das acções.
Quando, mais tarde, lhe disseram que só cortando nas obras de caridade poderia prover a um aumento das despesas, ficou imperturbável: «Então é o que teremos de fazer. Porque… a justiça está antes da caridade».
História adaptada de “Homens em tempos sombrios”, de Hannah Arendt (ed. Relógio d’Água)
* Nova secção do CV, que de vez em quando recorda pequenos episódios de grandes figuras da História. Há sempre uma moral a retirar. Mas isso fica a cargo do leitor.
