1 – A história seria hilariante, se o assunto que versa não fosse tão sério. Trata-se de um enconto de formação de professores. Mais grave: organizado pela Comissão Pró-Ordem. E ainda mais grave; “em coisas muito intelectuais, aparecem meia dúzia de professores”; tem de ser assim, porque ao fim de semana os professores não vêm”. E “assim” quer dizer que os encontros são em tempo lectivo; para os frequentar, é preciso pedir dispensa de serviço ao abrigo de normativo específico.
2 – O assunto de “formação” — o tema é Dicas para ser melhor professor — é sobre feng shui. Trata-se de uma filosofia que se baseia nos fluxos de energia. À mistura, o formador vai dissertando sobre os efeitos da posição dos astros. A astrologia será uma das dicas para promove o sucesso escolar. “Os professores estão fartos de ouvir falar de currículos alternativos, de gestão curricular…”!
3 – Dois aspectos graves, em assunto de tão capital importância, como é formar os que têm papel preponderante no processo educativo. Por um lado, a pobreza – para não dizer o ridículo – dos conteúdos. Se os formandos devem manifestar os seus desejos em relação às temáticas, cientes das lacunas ou necessidades emergentes, outra coisa será andar ao sabor de apetites, de modas ou de sentimentos de ocasião. Por outro lado, se não é escandaloso que a formação se faça em tempo de serviço, arrepia a mentalidade de que nada se pode fazer em fim de semana.
4 – Nestas circunstâncias, para quê discutir alteração à Lei de Bases do Sistema Educativo, aplicação do Processo de Bolonha, Avaliação de Escolas…? Sem pessoas novas, sem agentes educativos com critérios e convicções, em busca de compreensão profunda dos dinamismos do desenvolvimento humano e das estratégias pedagógicas para os desencadear e acompanhar, os melhores edifícios jurídicos, as mais sólidas construções de módulos temáticos, os melhores suportes pedagógicos, tudo cairá por terra.
5 – Este não é, infelizmente, todo o panorama nacional de profissionais do ensino. Multiplicam-se iniciativas de grande valor educativo; são muitos os professores que lutam apaixonadamente por currículos, pedagogias, recursos físicos e humanos que garantam uma mudança no desolador panorama da educação em Portugal. E fazem-no à custa de esforços pessoais, sacrificando tempos de legítimo descanso e os seus próprios recursos económicos. Por aí, iremos lá! — é uma esperança que, fundadamente, alimentamos.
