Há casos vitais e situações limite, em termos de relacionamentos humanos, que exigem uma atenção especial. Era domingo, dia das múltiplas missas e reuniões. Soubemos, ao fim da manhã, já com duas missas rezadas (faltavam três, mas só celebraria mais duas… uma comunidade desmarcou a “missa”, pela terceira vez consecutiva…), que, na cidade Mata Roma, tinha acontecido, na véspera, um homicídio “passional”, executado violentamente com 5, 6 ou 7 facadas, sobre um homem casado, por causa do “namoro” deste com a mulher do lesado.
O homem que foi morto, casado “primeira vez” no padre, depois de todo o “brilhante” percurso religioso: baptizado, crismado, líder de comunidade…; porém “mantinha” duas mulheres e respectivos agregados. Ele a vítima, electricista, apanhado de surpresa, ainda reagiu dando tiros; mas os ferimentos vários e a perda de sangue, apesar da assistência médica e tentativa de transporte para a capital do Estado, em São Luís, foram incontroláveis e veio a falecer.
O homicida, magarefe (carniceiro habituado aos cortes da carne, triste e macabra ironia… para os amores de “pula cerca”, expressão da cultura popular para o crime de adultério) cometeu o homicídio e fugiu de mota. Para completar a tragédia, três dias depois chegou-nos a notícia, efectuou o suicídio por enforcamento.
Alguns familiares do morto contactaram, indirectamente, os serviços paroquiais para obterem a autorização de “zelarem e homenagearem” o morto na igreja matriz. Era dia de domingo, mas como sabemos a morte não usa agenda; ele estava vindo de São Luís, para ser enterrado, imediatamente, em razão das condições do cadáver. Para além da ignorância religiosa que supunha poder dar-se a “extrema unção” depois da morte… até ao facto de não compreenderem, que nesse dia, havia Exposição e Adoração do Santíssimo, durante toda a tarde, o que impossibilitava a “vigília” do cadáver na igreja. Chegou-se a uma “plataforma de entendimento”. No fim da missa, o corpo poderia passar um tempo de oração na matriz, de passagem para a sua residência no interior perto da cidade, onde também seria velado.
Dez minutos depois de terminada a missa, entra o cadáver, os familiares e uma multidão de curiosos. Ordem e respeito, respeito e ordem, era a tentativa de contenção de todos os sentimentos. Breve encomendação prevista no ritual; palavras de circunstância, que raramente atingem cérebros e só cora-ções. Presenciei então uma expe-riência, que nunca vou esquecer: durante uma hora “desfilou” o cortejo, sem interrupções, de crianças, jovens, adultos e velhinhos, com Curiosidade de VER o rosto do morto; isso só foi possível, através de um vidro, sem poder ser tocado. Conseguimos, junto com o coral, acólitos e demais agentes, que o respeito mínimo fosse observado, pela multidão que em peso estava presente; até os irmãos crentes, da Igreja Assembleia de Deus, entraram na fila. “- Vamos circular… não fique parado…”, era o refrão exaustivamente repetido, para evitar certos exageros… difíceis de controlar nestas expressões da cultura e religiosidade populares.
(“A ovelha perdida – Parte II, a reflexão” será publicada no dia 16 de Junho)
