Em cima da linha Ninguém ignora que a Igreja é, por essência, comunitária. Pertencendo à Igreja, somos membros uns dos outros, embora em actividades e expressões diferenciadas. O específico de cada um, devidamente integrado, é que realiza o todo. E se há valores que se perderam na Igreja, este é certamente um deles e um dos mais importantes.
Hoje há mais igrejas do que Igreja, há mais individualismo do que comunidade. “A minha fé” aparece muitíssimas vezes em franca oposição à fé da Igreja e o sentido comunitário anda longe das nossas expressões públicas. As nossas igrejas tornaram-se quase como um transporte público: amontoados de gente. Porém, reunir muita gente no mesmo espaço físico não significa criar relação. Pessoas há, e são aos milhares, que se encontram fisicamente todos os dias, que trabalham lado a lado, e que se mantêm friamente afastadas umas das outras. Quanta solidão para milhares de pessoas que nunca estão sozinhas!
A Igreja é vítima também desta “doença” que mata o mais profundo das nossas vidas. É que estar na igreja não significa necessariamente estar em Igreja, porque igreja é espaço físico e Igreja é comunhão, participação, corresponsabilidade. Poderíamos passar alguns “slides” e facilmente daríamos conta de se estar perante uma indesmentível realidade. O “slide” que passo hoje, não é de agora, mas ainda mantém muitos partidários. Sendo embora uma negação da própria Igreja, ele se desenvolveu e foi alimentado ao longo dos séculos: o individualismo ainda latente, a pretender superiorizar-se ao sentido de comunhão. Esse individualismo desenvolveu-se muito ao longo da história, instalou-se nos comportamentos e na mentalidade, e hoje é ainda a “erva daninha” da nossa sociedade e da nossa Igreja. Os “herbicidas” que o Concílio Vaticano II lançou não conseguiram, até agora, queimar as suas raízes mais profundas, e, por isso, em qualquer lado e em qualquer momento, voltam a surgir novas “ervas” desse individualismo. Precisamos de estar precavidos.
Foi apenas mais uma vez: “Sr. Padre, não me poderá celebrar uma missa? Mas queria só para mim. Se pudesse ser…”. Para além de tudo o mais, egoísmo, individualismo, eventualmente vaidade ou racismo, estamos perante um disparate teológico. Na verdade, só quem não entende nada de missa é que pode pensar e pedir uma coisa destas. “Mas não tenho direito porquê?”, dir-se-á.
A reflexão que se me oferece fazer é, em primeiro lugar, esta: terei eu direito a reclamar para mim, como exclusivo, aquilo que é claramente de todos? Seria de todo impensável que alguém pudesse reclamar apenas para si o Sol, o Mar, o Ar, o Pão, a Água. O Sol tanto aquece cinco pessoas na praia, como cem mil, e ninguém rouba nada a ninguém. E Deus é maior do que o Sol, chega para todos, e chega abundan-temente. Poder-se-ia, contudo, alegar que uma missa por muitos e para muitos seria como um pão dividido por uma multidão: não daria a cada um mais que uma migalha. Que ridícula atitude esta de medirmos Deus pelas nossas pequenas réguas! Que atrevimento pretendermos meter nos nossos finitos e, às vezes, mesquinhos recipientes, o mar infinito de Deus.
Por outro lado, a missa, porque é uma acção sacramental, nunca é um acto individual e muito menos pode ser individualizada. Mesmo que o sacerdote a celebrasse sem participantes ou assistentes, ela não deixaria nunca de ser uma acção de toda a Igreja. Não quero questionar-me sobre se o sacerdote deve ou não deve celebrar missa sozinho (fisicamente, claro!). Tão-somente refiro que todos os sacramentos são actos de todos e para todos.
Acrescento ainda que, se alguém continua a teimar que uma missa por muitos pouco ou nada adianta, pergunto o que pensar das missas celebradas pelas almas do Purgatório? Quantas são? E as missas celebradas por Todos os Fiéis Defuntos? Quantos são? A riqueza dos dons de Deus tornar-se-ia numa extrema pobreza! Diga-se também que reduzir a missa a uma oração pelos mortos é continuar a não entender nada, mesmo nada de missa.
A missa é uma oração de todos e para todos, como referi. Todos rezamos por todos, todos rezamos com todos. Na missa não há nem pode haver lugar para orações particulares, porque tudo aquilo que é preocupação de um tem de ser preocupação de todos, tudo aquilo que é louvor de um tem de ser, necessariamente, louvor de todos. Por isso, estar a “cochichar” as oraçõezinhas particulares durante a missa é estar a adulterar o que há de mais profundo na própria celebração; estar a rezar o terço… isso era há quarenta anos, quando a missa era em latim! Ou será que se aproveita a oportunidade de “com uma cajadada matar dois coelhos”? Quem assim continua a pensar e a agir não sabe o que é a Igreja, porque não a entende como um Corpo, como um mistério de Comunhão, animada por um mesmo Espírito.
Assim, pois, na missa, celebração comunitária da nossa fé, precisamos de estar numa perfeita comunhão com as pessoas, com o mundo, com a vida e com Deus. Não é Deus que tem de ser à nossa medida, mas nós à medida de Deus.
