MARIA ISABEL PEREIRA VARANDA, oradora do Congresso Eucarístico, doutorada em teologia dogmática Maria Isabel Pereira Varanda é professora da Universidade Católica, em Braga, e preside ao Centro de Solidariedade/Projecto Homem (Braga). Inicialmente formou-se em Enfermagem, em 1985, mas depois decidiu estudar Teologia e concluiu o doutoramento em Teologia Dogmática, na Universidade Católica de Louvain-la-Neuve (Bélgica), em 1999. Além de ensinar na UCP de Braga, colabora com a Universidade do Minho, o Instituto Teológico Compostelano (Espanha) e o Instituto de Bioética da UCP (Porto e Lisboa). No Congresso, abordará o tema “Eucaristia num mundo secularizado”.
Correio do Vouga – A Eucaristia é uma ilha de sagrado no meio do mundo secularizado?
Maria Isabel Varanda – É o tipo de pergunta à qual não se pode responder sim ou não. A palavra sagrado coloca-me algumas dificuldades, mormente no que ela sugere de polaridade dicotómica da realidade; sagrado e profano, dois mundos que se opõem e se repugnam mutuamente. É que a condição de “salvos” em Jesus Cristo deslegitima qualquer pretensão a traduzir a realidade da criação através de termos éticos opostos.
Não podemos falar, então, de mundos em oposição?
Os binómios puro-impuro; bom-mau, sagrado-profano são inadequados para traduzirem uma realidade que o mistério da encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo marca definitivamente com uma salvação que não exclui, mas que, pelo contrário, se estende de forma inclusiva a toda a criatura.
Também a palavra ilha é provocadora. A definição corrente de ilha como “um pedaço de terra rodeada de água por todos os lados” sugere-me, de imediato, isolamento. Nesta acepção, a Eucaristia não é uma ilha, porque os ilhéus, que supostamente celebrariam a Eucaristia na ilha, vivem no continente; são mun-do e vivem no mundo e é, precisa-mente, no seio do mundo secularizado que, aqueles que crêem, edificam oásis de transcendência, penínsulas e pontes, celebrando a sua fé no Deus criador de um mundo capaz de autonomia e capaz de viver “etsi Deus non daretur” (como se Deus não existisse).
O que é o mundo secularizado?
De uma forma geral, a palavra secularização remete para um fenómeno histórico que resulta do confronto entre, por um lado, o Homem moderno, que defende a autonomia da esfera terrestre e o direito a viver num mundo sem Deus, e, por outro lado, uma sociedade fortemente ligada à Igreja em todos os seus aspectos. O processo de secularização supõe uma progressiva emancipação das sociedades (sentido objectivo) e das consciências (sentido subjectivo) da tutela do religioso. Se é verdade que os movimentos de secularização e laicização reagem principalmente contra o cristianismo, eles opõem-se às religiões em geral.
Mas nem tudo é negativo na secularização…
Há que reconhecer que o processo de secularização do mundo tem contribuído, pelo seu vigor intelectual e pela sua preocupação humanista, para a valorização positiva do mundo e para o despertar do indivíduo à responsabilidade por si, pela cidade e pelo ambiente natural. No entanto, comporta um imenso empobrecimento, ao promover uma antropologia míope, em que os horizontes humanos se reduzem aos limites da simples imanência, o “instinto de transcendência” é reprimido, não deixa espaço para as questões fundamentais do ser humano: sentido da vida, origem, destino… e não deixa espaço para Deus.
Na dinâmica do humanismo sem Deus, entregues a nós mesmos, e diante uns dos outros, não nos descobrimos nem mais humanos, nem mais felizes, nem mais realizados. Se não acreditar em Deus é um direito, acreditar em Deus também é um direito. E o direito de Deus? Não terá Deus também direito a um lugar no seio do mundo secular?
Se algum dia o ser humano deixar de acreditar em Deus, creio que nem aí Deus deixará de acreditar no ser humano e far-nos-á perceber isso.
O mundo secularizado opõe-se à Eucaristia?
O fundamentalismo secular (secularismo) opõe-se à Eucaristia, porque, neste regime, Deus é o “inimigo nº 1”. É portanto inconcebível qualquer referência da existência humana a Deus que não seja para O negar e recusar.
Podemos depreender que uma secularização sem fundamenta-lismo é possível…
De facto, a secularidade, entendida como “justa autonomia das realidades criadas”, inscreve-se no projecto de Deus para a sua criação; um projecto de liberdade, de res-ponsabilidade, de criatividade e de autonomia. No livro do Génesis, no primeiro relato da Criação, lemos que “Deus viu que tudo era muito bom”. Deus saúda a secularidade do mundo por Ele criado e confia o mundo ao ser humano para ele o gerir e dele cuidar, no respeito pelas leis intrínsecas de cada ser. A Eucaristia, como louvor e acção de graças, tem todo o sentido no seio de um mundo secular. A autonomia da “cidade secular” não implica impossibilidade de um Deus real e presente; ouso dizer que a autonomia é condição essencial para uma justa e eucarística relação com Deus.
Qual é o lugar da Eucaristia neste mundo?
A Eucaristia é um estado de alma permanente daquele que reconhece não ter a sua razão de ser em si mesmo; daquele que percebe a sua vida como desejada e amada e por Deus; daquele que encontra coerência e realização na referência do seu ser a Deus.
A Eucaristia é uma dinâmica de comunhão de dimensões cósmicas; é celebrada por aqueles que vivem na fé, num uníssono de louvor, de comunhão e de acção de graças. A Eucaristia é a celebração do amor das criaturas pelo seu criador. Celebração do amor e celebração de amor, marcada por especiais momentos de intimidade: A Santa Missa. Para aquele que crê, a Eucaristia é tudo; para o que não crê, a Eucaristia é nada. O seu lugar no mundo tem a medida da fé do mundo.
No seio do mundo secularizado, a Eucaristia está para além do positivismo materialista e científico; ela é dinamismo metafísico; é representação efectiva do múnus sacerdotal (fazer ponte com todas as criaturas e também com Deus).
A Eucaristia lembra que o secularismo não é a última nem a única palavra sobre o sentido, a vocação e o destino do mundo. Como a pequena luz que brilha ao lado dos milhões de sacrários espalhados pelo mundo e que assinalam uma Presença, a celebração eucarística imprime a sua marca no mundo secular, lembrando que Deus não é má notícia para o mundo, mas antes uma possibilidade legítima e feliz de Presença no mundo.
