Um testemunho de Mons. João Gaspar Que poderei recordar dos meus contactos diários com D. António Baltasar Marcelino, a partir do dia em que veio para o meio de nós – 01 de Fevereiro de 1981? Desde que comecei a privar de perto com ele, nunca deixei de admirar a intensidade e a energia de uma vida que não se cansa, procurando estar presente onde vê ser necessário ou útil, para conhecer até ao pormenor tudo o que diga respeito à vida diocesana e às suas instituições, para estimular os colaboradores e muitas outras pessoas no serviço da Igreja, para orientar as consciências no caminho certo, para dialogar com sacerdotes, diáconos e leigos antes de tomar decisões, para transmitir a mensagem cristã em conferências, palestras, ou simples encontros, para celebrar os sacramentos, para presidir a sessões públicas, para acompanhar tanto os que sofrem em horas de infortúnio como os que rejubilam em momentos de regozijo. Não sei explicar como tem resistência física para cumprir a agenda, a que se obriga e a que não falta.
Pessoalmente, vejo D. António num esforço contínuo de imitar, com vivacidade, o apóstolo S. Paulo que – como este escreveu aos coríntios – se «fez tudo para todos, a fim de ganhar alguns, por todos os meios». Ideólogo da esperança, sabe ler a vida numa perspectiva humanitária e cristã, com o fim de procurar estabelecer pontes entre a fé a cultura, entre a Igreja e a Sociedade.
Um outro sector a que se entrega, certamente com muito prazer, é o dos meios de comunicação social. São frequentes as entrevistas e as intervenções, sobre muitos aspectos da vida política, social, moral e eclesial. Contudo, realço a sua colaboração em artigos semanais no Correio do Vouga, logo transcritos por outros periódicos. Os temas desenvolvidos são sempre actuais; a erudição e a competência do autor manifestam-se desde a primeira à última linha, como aliás é de esperar.
Com os dons e as virtudes de que é enriquecido, com o dinamismo e a alegria que lhe são naturais e com a inteligência e a vontade de que é dotado, a sua presença em Aveiro tem sido marcante, desde o primeiro momento. Das pessoas tem sabido fazer amigos, cooperadores e apóstolos para a implantação e o crescimento do Reino de Deus. Embora tivesse vindo de outra região, logo o senti como um aveirense.
Na mensagem datada no dia em que iniciou o múnus de primeiro responsável da Diocese, em 07 de Fevereiro de 1988, D. António Marcelino deixou transbordar do coração a norma que serve como sua regra de acção; cito essas palavras: – «Ao meu lema da primeira hora – ‘Fazer a verdade na caridade’ – desejo juntar, agora, uma outra palavra do apóstolo Paulo, com a consciência do que ela exigirá, todos os dias, de mim e dos meus colaboradores: – ‘Darei o que é meu e dar-me-ei a mim mesmo pela vossa salvação’ (II Cor. 12, 15)».
Não faço comentários, porque, na Igreja, sabemos como ele se tem dado e preocupado intensamente no rejuvenescimento das comunidades cristãs, na reforma das estruturas diocesanas e paroquiais, na procura de novos caminhos que se ajustem às prementes necessidades actuais. Para consciencializar os cristãos na urgência da missão junto dos crentes e junto dos adormecidos e indiferentes, incentivou o Congresso dos Leigos, realizado em Dezembro de 1988, lançou e acompanhou os trabalhos do II Sínodo Diocesano, que decorreu entre os anos de 1990 e 1995, incentivou a Caminhada Sinodal sobre os Jovens, terminada em 2004, e, presentemente, dá-se, de alma e coração, à realização do Congresso Eucarístico; além disso, tem promovido assembleias diocesanas e visitado regularmente as paróquias, as instituições e as comunidades religiosas.
Voltado, outrossim, para a formação integral da pessoa humana, deu incremento a escolas de diversos graus, como centros sociais para a infância e colégios do Ensino Básico e Secundário; e, com o desejo de preparar leigos para as lides apostó-licas, arrancando-os da monotonia, em 1989 criou o Instituto Superior de Ciências Religiosas, cuja actividade se desenvolve em múltiplos cursos de vários níveis.
Estes são apenas uns apontamentos da riquíssima personalidade de D. António Baltasar Marcelino, com quem tenho convivido sob as mesmas telhas e no mesmo labor diocesano. Em síntese muito individual, posso asseverar que a sua grande aspiração é pôr os cristãos em contacto com Jesus Cristo, para que O conheçam, sigam e vivam.
Ardendo em desassossego na multiforme acção pastoral, sempre em projecto permanente, o actual bispo de Aveiro não me deixa indiferente perante uma sociedade em mutação, onde é necessário que a Igreja seja um clarão de esperança; sinto-o como alguém que constantemente me lembra que a caridade de Cristo me obriga a não parar.
Afinal, na perspectiva dos meses ou anos que lhe podem restar em Aveiro – como ele escreveu em 25 de Setembro de 2002 – «não é o tempo o principal, mas sim o manter vivo até ao fim o projecto de fidelidade Àquele e àqueles a quem me devo e o permanecer sensível aos sinais dos tempos, que tanto denunciam apelos de Deus, como ausência de horizontes de transcendência. Não se pode estar onde se está, senão vivo; nem adormecer, nem desistir. O que se viveu antes diz-nos hoje que tudo na vida constituiu certeza, força e esperança para continuar de modo útil. Quando a nossa razão tem Deus pelo meio, o presente é o único espaço possível de fidelidade e de felicidade».
Mons. João Gaspar
