LIVRO Era inevitável que, com a eleição do Cardeal Ratzinger, para sucessor de Pedro, surgissem novos livros com os seus escritos, para além da meia dúzia que já havia em português. A edição também é um mercado, e o mercado vive das oportunidades. Mas, no caso de “Europa, os seus fundamentos hoje a amanhã”, parece haver um aproveitamento algo abusivo do contexto (a Europa) e da notoriedade do autor, agora Papa.
O livro é composto por sete comunicações (conferências, discursos, homilias e um debate) em que o tema nem sempre é Europa. Por vezes, é mais “crise da cultura” ou “política e moral”. Não quer dizer que não sejam pertinentes. São. Quer dizer é que o título do livro induz em erro. Falar de Europa, hoje, implica falar de União Europeia, coisa que nunca é referida, apesar das doze estrelinhas da capa. No segundo ensaio, que se intitula “Reflexões sobre a Europa”, por exemplo, assistimos a algo parecido com aquele pregador que é convidado para falar sobre S. José, mas só preparou o sermão a pensar na importância da confissão, pelo que, depois de uma introdução do tipo “S. José era carpinteiro; os carpinteiros fazem confessionários”, chega ao tema que preparara: “Ora a confissão…”
Há, no entanto, vasta reflexão sobre política como consequência da moral (e não do pragmatismo), sobre concepções díspares de liberdade e sobre o papel da religião como base da cultura e, portanto, impossível de ignorar pelos não crentes no Estado laico (obrigação do respeito).
Os últimos quatro discursos do livro foram proferidos aquando do sexagésimo aniversário do desembarque dos Aliados em França (6 de Junho de 2004) e centram-se na “graça da reconciliação” e na procura mundial da paz. É curioso ver um nascido na Alemanha, derrotado, falar da reconciliação e agradecer a ajuda da América na reconstrução do seu país. Da memória da guerra, fica acima de tudo “o sobreaviso face a um Estado que possa perder os fundamentos do direito e cortar as suas raízes”. Esse receio da perda das raízes cristãs no poder e na cultura é o que perpassa, afinal, por todo o livro.
Última nota: Esta obra recolhe a célebre conferência que opôs Ratzinger (“representante da tradição católica clássica”) ao filósofo da visão laicista do Estado Jurgen Habermas. Mais uma vez, fala-se dos fundamentos morais do Estado. Não de Europa.
