A Igreja no mundo contemporâneo (IV)

Revisitando o Vaticano II A eficácia de um Concílio depende da sua recepção. Um Concílio só é eficaz quando o povo crente faz a sua recepção, isto é, quando faz suas, como regras de vida, as decisões promulgadas, reconhecendo-as como necessárias e essenciais para a vida da Igreja.

Casiano Floristán foi um dos contributos importantes para que o povo de Deus acolhesse o Vaticano II. Vamos ficar com ele, por algum tempo, para apreciarmos os conteúdos da Gaudium et Spes, depois de termos aflorado o primeiro deles – o homem. E começamos pelo Mundo.

“A Constituição Gaudium et Spes entende o mundo – afirma Y. Congar – como a ‘humanidade na sua existência terrestre, relacionando a sua obra temporal, as estruturas de que se fornece para a cumprir, e o ambiente cósmico em que e com que vive esta existência terrestre.’ O Vaticano II aceita a tal ponto a realidade do mundo no seu sentido mais positivo que alguns católicos e protestantes criticaram o ‘optimismo conciliar’ da Gaudium et Spes. (…)

Evidentemente, o Vaticano II reconhece a ambivalência do mundo; mas acentua a sua visão positiva sobre a negativa. Não se trata, como até então, de condenar os erros do mundo ou o pecado da cultura nova – como fez o Syllabus – mas de ler os ‘sinais dos tempos’ com um olhar positivo, para aceitar tudo o que há de bom e de positivo no mundo actual. Na alocução de Paulo VI à nobreza romana (13.1.1966), o Papa pergunta-se ‘como é que a Igreja vê o mundo?’, para responder que o Concílio deu ‘respostas novas’ e um critério fundamental: ‘o optimismo’. ‘A Igreja – diz Paulo VI no mesmo discurso – quer hoje contemplar o mundo em todas as suas expressões… Quer considerar todas as coisas com imensa admiração, com um grande respeito, com simpatia maternal, com amor generoso’. ‘A Constituição Gaudium et Spes – escreve A. Amoroso Lima – não é uma condenação do mundo moderno, mas uma visão admiravelmente objectiva do nosso mundo actua’.”

Estou convicto de que regredimos neste optimismo, face a tantos desencontros, a fenómenos de insegurança, ao agravamento das crises sociais… Mas é o mundo que Deus Criador “viu que era bom” que se perverteu ou é o nosso olhar e o nosso coração que está pervertido e se tornou incapaz de ver essa bondade?…

Querubim Silva