As escolhas do sábio

À Luz da Palavra – XVII Domingo do Tempo Comum – A A liturgia deste domingo convida-nos a reflectir sobre as nossas prioridades, sobre os valores onde alicerçamos a nossa existência. Sugere-nos, especialmente, que devemos construir a nossa vida sobre os valores duráveis propostos por Jesus. Os actores bíblicos, tanto do evangelho, como da primeira leitura, escolhem o “melhor”, isto é, privilegiam o ser sobre o ter.

A primeira leitura apresenta-nos Salomão, rei de Israel, como o modelo do homem “sábio”, que consegue perceber e escolher o que é importante, e que não se deixa seduzir pelos valores efémeros. O “sábio” é aquele que, com espírito crítico, sabe ver os valores que a moda propõe e discernir o verdadeiro do falso. O “sábio” é aquele que consegue perceber aquilo que, efectivamente, o realiza e lhe permite levar ao fim, dentro da comunidade, a missão que lhe foi confiada, não se deixando seduzir pelas opulências e pompas, para seu próprio serviço.

No evangelho, Jesus, usando a linguagem alegórica das parábolas, recomenda aos seus seguidores que façam do Reino de Deus a sua prioridade fundamental. Todos os outros valores e interesses devem passar para segundo plano, face a esse “tesouro” supremo que é o Reino. O cristão e a cristã, que têm um coração “sábio”, sabem discernir o fundamental e são capazes de escolher e de orientar a sua vida pelos valores do Reino. Optam por Jesus e pelo seu seguimento, e conseguem, por exemplo, renunciar a um prazer imediato para usufruir de um bem durável. Sabem que é de Deus que lhes vêm todos os bens. Por isso, dão o primeiro lugar à oração de louvor e acção de graças, não deixando também de pedir o dom do Espírito Santo. Guardam o domingo como o grande dia da oração comunitária, da família, do convívio e da caridade. Procuram, em primeiro lugar, Deus e a santidade, porque sabem que o resto lhes será dado pelo Pai que vela por eles. É evidente que o homem que comprou o campo ou a pérola teve de agir, de procurar muitos outros campos e pérolas, teve de pensar e de decidir. Deus só faz o que não conseguimos fazer só por nós. Mas se vivermos em Jesus, como filhos do Reino, nada nos faltará, porque somos felizes a partir do nosso interior.

A segunda leitura convida-nos a seguir o caminho e a proposta de Jesus. Esse é o valor mais alto, que deve sobrepor-se a todos os outros valores e propostas. Nesta época, marcada pela indiferença face a Deus, Paulo convida-nos a tomar consciência de que Deus nos ama, vem ao nosso encontro, nos aponta o caminho da vida plena e verda-deira, desafia-nos à identificação com Jesus, convida-nos a integrar a sua família. Diante da oferta de Deus, somos livres de fazer as nossas opções; no entanto, a vida plena está no acolhimento desse “valor mais alto” que é o seguimento de Jesus e a identificação com Ele. É esse o “valor mais alto”, o “tesouro” pelo qual eu optei de forma decidida no dia do meu baptismo. Tenho sido, na caminhada da vida, coerente com essa escolha?

Leituras do XVII Domingo: 1 Rs 3, 5.7-12; Sl 119, (118); Rm 8,28-30; Mt 13,44-52

Deolinda Serralheiro