Algumas notas da minha memória eucarística

A Eucaristia no meu coração Emerge uma das nossas brincadeiras de crianças, entre irmãos: a mimetização da missa. Nas vestes daquele destacado da assembleia, com linguagem estranha, elevava um disquinho branco que as pessoas tomavam. A mim calhava sem discussão o papel do celebrante, revestido com veste da mãe, até aos pés, naturalmente. E com bocadinhos de papel dávamos a “comunhão”.

Fui iniciado pelos meus pais no caminho da missa, da catequese, da primeira comunhão: o jejum eucarístico, a partir da refeição da ceia de sábado; a primeira comunhão tão esperada; o contacto com o Mistério, em que não se podia tocar a hóstia com os dentes… Se ficava colada no céu-da-boca, seria válida a comunhão? De qualquer modo, realçava-se a grandeza da Realidade que procurava criar expectativa e infundir respeito e temor. Depois da celebração, o pequeno-almoço oferecido pela paróquia, não acontecesse algum fanico. À tarde, a procissão, no dia em que éramos o centro das atenções e o orgulho da família. E o fato com gravata ou pisco, com uma fita branca em cruz pegada à manga esquerda (?), que constituía um hábito, de facto, domingueiro.

O Senhor permitiu que nunca deixasse a missa, apesar das crises de crescimento. Quase sempre comunguei. Fui avaliando o efeito da própria participação plena na missa. Na paróquia de Águeda, recordo-me da beleza da Vigília Pascal, bem preparada: todos aqueles sinais, os movimentos, que centravam a minha atenção e admiração do Mistério. O Movimento Shalom deu-me a experiência da celebração juvenil, a festa e a alegria com que se pode e deve viver a eucaristia. Do Caminho Neocatecumenal recebi o significado mais profundo: da Páscoa judaica à Páscoa de Jesus Cristo, a Páscoa da Igreja centrada na Noite Santa, vivida em vigília expectante até à madrugada da ressurreição. A riqueza da plenitude dos sinais sacramentais.

Se uma vez o disco branco me parecia de papel, embora tenha sido instruído e tenha visto a sua confecção (há tempos, num encontro juvenil arciprestal de Estarreja, o atelier que teve mais interesse foi o da confecção das hóstias), agora via e experimentava com realidade a expressão do “Tomai e comei…” Enternece-me ter na mão o próprio Senhor, que tão humilde se deixa mastigar para me dar a vida. E me dá do seu sangue a beber, para viver a alegria da sua ressurreição.

Fiz a experiência no Caminho Neocatecumenal, da assembleia onde o anonimato se procura excluir segundo um projecto de Igreja de modelo molecular e atómico, isto é, a Igreja como comunidade de comunidades, como um útero capaz de acolher e regenerar o homem ferido do nosso tempo.

No Seminário, senti nitidamente, enquanto auxiliava na distribuição da Eucaristia, o apelo do Senhor para o ajudar nessa tarefa como presbítero. Saboreei-o no diaconado, particularmente na distribuição aos doentes.

Como sacerdote não posso viver sem a Eucaristia. Sei o que é vivê-la todos os dias, mesmo se alguma vez sem assembleia. Impressiona-me a recitação das palavras institucionais sobre o cálice, “Isto é o Meu sangue, dado por vós e por todos, para a re-missão dos pecados…”, porque, ao dizer “Meu sangue”, vejo que me é pedido que na comunhão com Cristo aquele “Meu” torna-se meu sangue… cume e síntese do meu ser cristão e sacerdote… Como estou longe da perfeição da fé.

Duas pinceladas ainda neste quadro da minha experiência. Uma é a contemplação de cada rosto, de cada pessoa que recebe o Senhor, quanto vale aquele Pão… e aquele que lhe pode dar o Corpo do Senhor. Outra é o efeito nas pessoas que estiveram afastadas da Igreja e que muito sofreram. Quando acolhidos de novo, vi a avidez pelo Corpo do Senhor e pelo Seu Sangue, vi os frutos pelo número de filhos na partilha generosa dos bens, demonstrando a sua gratidão à Igreja, porque, por mais que dessem, não podiam pagar o dom recebido, e vi a disponibilidade para a missão.

Pe. Virgílio Susana e Maia