Irmão Roger (1915-2005) Mais de doze mil pessoas despediram-se do Irmão Roger, em Taizé, no dia 23 de Agosto. Entre os muitos jovens da Europa e do mundo (alguns vindos directamente da Jornada de Colónia), estiveram cinquenta da diocese de Aveiro, que há vários meses tinham programado passar esta semana de Agosto na comunidade ecuménica fundada por Roger Schutz, 100 km a norte de Lyon, França.
O irmão Roger, de 90 anos, que em Dezembro passado esteve em Portugal, no encontro que todos os anos os “jovens de Taizé” organizam numa cidade europeia, foi assassinado por uma mulher romena, aparentemente com perturbações mentais, no dia 16 de Agosto. Luminita Solcan, de 36 anos, no início da oração da noite, aproximou-se do irmão Roger, sem que ninguém suspeitasse das suas intenções, e cravou-lhe uma faca na garganta. Dois médicos, que se encontravam na oração, de imediato socorreram o fundador da comunidade; não conseguiram salvá-lo, enquanto a romena foi detida sem oferecer resistência. Estavam cerca de 2500 jovens em oração, mas muitos não se aperceberam de nada. Quando, minutos depois, chegou a notícia da morte do irmão Roger, a oração prosseguiu com profunda dor, mas com serenidade, dentro do espírito de Taizé.
As exéquias, uma semana após a morte, foram presididas pelo cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, que celebrou a eucaristia concelebrada por quatro sacerdotes desta comunidade ecuménica, e leu uma mensagem de Bento XVI. No texto, o Papa constata que em Taizé numerosas gerações de cristãos, respeitando as suas próprias confissões, realizaram “uma autêntica experiência de fé, no encontro com Cristo, graças à oração e ao amor fraterno”.
No início da missa, o irmão Alöis Löser, alemão, novo prior da comunidade, rezou pela mulher que assassinou Roger Schutz: “Deus de bondade, confiamos ao teu perdão Luminita Solcan, que, num acto doentio, pôs fim à vida do nosso irmão Roger. Com o Cristo na cruz, nós dizemos-te: ‘Pai, perdoa-lhe, ela não sabe o que fez.’ Espírito Santo, rezamos-te pelo povo da Roménia e pelos jovens romenos, tão amados em Taizé”.
Os restos mortais do irmão Roger foram sepultados no pequeno cemitério que rodeia a igreja românica do povoado de Taizé, onde descansam sua mãe e vários irmãos.
J.P.F.
Reacções
“A sua morte aflige-me ainda mais, porque precisamente ontem [15 de Agosto] recebi uma comovida carta de Roger Schutz, em que dizia que estava de todo o coração com o Papa e todos os participantes na Jornada Mundial da Juventude em Colónia”
Bento XVI
“Partindo da oração, o irmão Roger (e a “sua” Comunidade de Taizé) lançou um alerta que mostrou a urgência de se construir um mundo de fraternidade e sem barreiras. Não quis ficar nas teorias…
O seu discurso, sublime e alicerçado na experiência pessoal, era rico, porque, vivido corajosamente, conseguia motivar os outros a realizarem uma experiência idêntica.
Como profeta destes tempos novos, falou em nome de Deus e foi compreendido principalmente pelos jovens. Trata-se da confirmação da actualidade do seu carisma, que continuará a marcar o futuro das comunidades cristãs.
O sangue derramado no “seu” ambiente de oração e de comunhão com jovens de mentalidades diferentes vai frutificar e produzir novas sementes de unidade neste mundo, que teima em não compreender a singularidade e a nobreza da vida dos verdadeiros testemunhos”.
D. Jorge Ortiga, Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa
“O irmão Roger será sempre, para todos nós, mas sobretudo para os jovens, um dos servidores mais extraordinários dos valores de respeito e de tolerância que fundam as comunidade humanas.”
Jacques Chirac, presidente francês
“Segundo as melhores tradições da fé que o animava, o irmão Roger consagrou a sua vida a servir a paz, o diálogo e a reconciliação. Tinha-se tornado advogado incansável dos valores do respeito, da tolerância e da solidariedade, em particular junto dos jovens. A sua mensagem de esperança e de confiança continuará como uma fonte de inspiração para todos”.
Kofi Annan, Secretário Geral das Nações Unidas
“Fique aqui. Estamos sozinhos”
Roger Schutz, suíço, nascido a 12 de Maio de 1915, passava pela pequena aldeia de Taizé, em 1940, quando uma idosa lhe pediu: “Fique aqui. Estamos sozinhos”. Decorria a II Guerra Mundial e o pastor calvinista, de 25 anos, decide ficar. Durante os primeiros tempos, dá abrigo aos membros da resistência francesa e ajuda os judeus que fogem dos nazis.
Comunidade ecuménica
Em 1944, inicia com alguns jovens uma comunidade que vive na simplicidade da partilha dos bens materiais e espirituais e observa o celibato. A comunidade é ecuménica. Reúne católicos e protestantes. A inspiração terá vindo da sua avó, que, sendo protestante, frequentava uma paróquia católica. Hoje, a comunidade de Taizé reúne uma centena de irmãos de 25 países (dois são portugueses) e dinamiza um centro que acolhe anualmente milhares de jovens. De um domingo até ao domingo seguinte, cada um é convidado a entrar no ritmo de uma vida comunitária durante uma semana: reunir-se com os irmãos três vezes por dia para a oração, juntar-se a pessoas de outros países para encontros, refeições, discussões em pequenos grupos e diversos trabalhos.
Para os jovens, Taizé é sinónimo de busca interior e serenidade. Para a Igreja, é um sinal de que a unidade entre cristãos separados é possível.
Alöis Löser é o novo prior
O irmão Alöis Löser, católico, alemão, de 52 anos, é o novo prior da Comunidade Ecuménica de Taizé, conforme o fundador da comunidade designara há oito anos. Estava previsto que até final de 2005 o irmão Roger abdicasse do cargo de prior da comunidade. Natural de Estugarda, Alöis está em Taizé há três décadas. Em declarações à imprensa, confessou “não saber” o que levou o irmão Roger a escolhê-lo, mas assegurou que o caminho será de “continuidade”. “Vamos viver em conjunto a parábola da comunidade, quero mostrar que a reconciliação entre os Cristãos não é um sonho, é possível”, disse Alöis, sublinhando que “os jovens buscam aqui um sinal de esperança”.
Peregrinação de Confiança
No final de cada ano, numa das principais cidades da Europa, Taizé anima um grande Encontro em que participam dezenas de milhares de jovens, vindos de toda a Europa e também de outros continentes. Estes Encontros constituem etapas de uma “peregrinação de confiança através da terra”. O último foi em Lisboa. O próximo será em Milão, Itália, de 28 de Dezembro de 2005 a 1 de Janeiro de 2006.
