Todos os anos ficamos mais pobres

Incêndios florestais Em Portugal, Verão é sinónimo de incêndios. “Portugal é um país que foi capaz de montar dez estádios para o Campeonato Europeu de Futebol, mas não é capaz de acabar com este flagelo ano após ano. Começa a ser uma novela” – palavras de Thomas Fisher, jornalista do alemão ZDF, que acrescentou: “Fala-se, em Portugal, na época dos incêndios com a mesma normalidade com que se fala das férias, do Natal ou dos saldos”. O fogo não se evita nem se previne. Combate-se como uma fatalidade. E ouvem-se frases de pessoas anónimas, como estas: “Já estávamos à espera” ou “Não ardeu no ano passado, tinha de arder este ano”.

De ano para ano, aumentam os meios de combate, mas não diminuem as áreas ardidas. No total, no país, de 1990 a 1999, em média, por ano, arderam 102 mil hectares (um hectare equivale a um quadrado de 100×100 metros, ou seja, praticamente o tamanho de um campo de futebol); de 2000 a 2004 a média anual foi de 190 mil hectares, um aumento de 86%. Se pudéssemos juntar toda a área ardida nos últimos vinte e cinco anos (2,8 milhões de ha) obteríamos um incêndio com início em Bragança e fim no sul do distrito de Aveiro.

Causas e soluções

A origem dos fogos, dizem as estatísticas, deve-se aos incendiários (20%), a um ou outro interesse económico (muitas suspeitas, pou-cas acusações em tribunal) e principalmente à negligência. As causas porque se propagam tão rapidamente e se tornam gigantescos também estão mais do que estudadas: desordenamento florestal, matas sem qualquer tipo de limpeza, aumento das temperaturas normais do Verão devido ao aquecimento global, dificuldade de acessos, meios de combate insuficientes. Quanto às soluções, passam pelo longo, médio e curto prazo. Longo: ordenamento florestal, limpeza das matas – coisa que as pessoas só farão quando for lucrativo. Para isso, fazem falta indústrias que se alimentem dos detritos florestais, como as centrais de biomassa (só existe uma em Portugal, em Mortágua, com resultados pouco conhecidos) ou de produção de bioetanol (como na Suécia, onde há automóveis movidos com esse combustível produzido a partir de derivados florestais). Médio prazo: vigilância e prevenção (com construção de acessos, p. ex.). Curto prazo: detecção e ataque imediato dos fogos. Todos os fogos começam pequenos. Dominam-se facilmente, quando atacados na crucial primeira meia hora.

Mas os responsáveis pelo estado a que chegamos são claramente os governantes (no fundo, a sociedade que os elege). Todos os anos se proclamam boas intenções, que são levadas pelas primeiras chuvas. Ou que são relegadas para segundo plano (é o que parece que vai acontecer com a aproximação de eleições e a possibilidade do novo referendo ao aborto). Para mais, sente-se uma relativa benevolência do sistema judicial para com os incendiários.

Quem é que perde com tudo isto? Em primeiro lugar, os donos das florestas e casas ardidas, para não falar nos que morrem no meio das chamas. Mas também o país no seu todo. A floresta, o “petróleo verde”, representa 14% das exportações portuguesas, uma quota maior do que a dos têxteis. Um grande incêndio equivale a uma fábrica que fecha. Todos os anos ficamos mais pobres.

J.P.F.