Grandes teólogos 1 – Karl Barth

O Leitor pergunta Este espaço será dedicado a seis grandes teólogos, nas próximas semanas, retomando uma questão da semana passada (“Qual o maior teólogo do século XX?”). Entretanto, os leitores podem dirigir as suas questões para: Correio do Vouga / Rua Batalhão Caçadores Dez, nº 81 / 3810-064 AVEIRO / ou por e-mail: corvouga@mail.telepac.pt

José Luís Martín Descalzo, padre e escritor espanhol, escreveu o seguinte de Karl Barth, muito mais sugestivo que um amontado de datas e obras e bem revelador da sua teologia:

“Karl Barth, talvez a mais importante cabeça teológica deste século, tinha o costume de, todas as manhãs, antes de sentar-se a escrever as páginas da sua Dogmática, interpretar ao piano algumas das sonatas de Mozart, como se esperasse que a música do salzburguês lhe revelasse essa “sabedoria central” que Barth considerava superior a todas as teologias, e que o levava a pensar que ele, ao fim e ao cabo, se salvaria mais pelo que guardasse do Mozart menino, do que pelos conhecimentos que conseguisse armazenar em sua vida.

Um dia, Barth teve um sonho: estava designado para fazer a Mozart um exame de teologia, e como o admirava profundamente, para ele poder fazer um exame brilhante, interrogou-o sobre a teologia das suas missas. Mas Mozart, o interrogado, continuava totalmente silencioso, sabendo muito bem que não podia traduzir em palavras o que ele quisera exprimir através da música. Trauteava por isso o “Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo”, como se quisesse dizer que ali se resumia toda a sua teologia”.

Mais do que um resumo da teologia de Mozart (uma observação: diz-se que Bento XVI também gosta de interpretar Mozart ao piano), é um resumo da teologia do próprio Barth, o teólogo protestante mais importante depois de Lutero e Calvino.

Karl Barth, nasceu em 1886, em Basileia (Suíça), e morreu em 1968. Estudou na Alemanha e, em 1904, tornou-se pastor numa paróquia reformada de Genebra. As suas obras mais importantes são o “Comentário da Epístola aos Romanos” (1919) e a “Dogmática” (12 volumes de uma obra incompleta).

Em 1933, os nazistas alcançam o poder na Alemanha e Karl Barth dirige a luta da Igreja Evangélica contra Hitler e contra o movimento dos “cristãos alemães”, que o apoiavam e chegavam a cantar hinos a Hitler, no meio dos hinos de Lutero. Devido a essa oposição, é expulso da Alemanha em 1935, onde ensinava, refugiando-se em Basileia e prosseguindo a luta contra o nacional-socialismo.

Duas expressões caracterizam o pensamento teológico da Karl Barth: “teologia da crise” e “teologia dialéctica”. A “crise” refere-se ao abismo que separa o ser humano de Deus. Não existe nenhuma ponte natural entre o ser humano e Deus, defende Barth, contra a teologia natural (dominante nos meios católicos) e a teologia liberal (mais nos meios protestantes), ambas muito optimistas sobre a capacidade do ser humano alcançar Deus. A “dialéctica” tem a ver com a tensão entre esta negação da capacidade humana para a salvação e a afirmação do mundo por parte de Deus em Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus a tirar os pecados do mundo.

Nos tempos turvos que Barth viveu, não foi só um grande teólogo. Foi uma das maiores figuras espirituais do século.