Perante um conjunto de vivências, ainda não verbalizadas de modo consistente, a primeira escolha de-procura-de-resposta recai sobre o livro, “A Corrosão do Carácter” (1998), do sociólogo Richard Sennett. O carácter está vinculado a experiências emocionais a longo prazo. Hoje, a pessoa está prisioneira do presente. O que acontece? Não conseguimos, muitas vezes, compreender porque nos sentimos desconfortáveis e ansiosos em relação ao futuro. Somos pessoas mal resolvidas, porque a cabeça está mal arrumada e o coração sofre porque o amor não se sente amado (click S. Francisco de Assis).
Vivemos no reino do “curto prazo”, isto é, “continue em movimento, não se comprometa e não se sacrifique”. Como podemos decidir o que é valor fundamental numa sociedade do descartável e do imediato? A flexibilidade, a mudança, a inovação, o risco, têm um alto custo social e humano. Falamos dessa “cosmovisão” quer pela sua fácil proliferação, quer pela sua ausência, via defesas pantanosas. Num credo impessoal(?), nós sabemos que o dinheiro não é tudo. Mas as verdadeiras decisões são adiadas para quando houver maior estabilidade financeira. A questão também exige que a visão de que o “modelo-mundo-anterior” não era apenas bom ou mau, mas como nos organizamos, ganha modo imperativo o “nós”, numa narrativa diferente das nossas vidas, mergulhados que estamos todos num “capitalismo-consumismo” que desorienta porque nos vicia inconscientemente famintos.
Depois de muito trabalho e mais trabalho, que nos levam mais fundo que o cansaço. Pois o cansaço, o descanso resolve. Mas quando e onde as perdas não são mais compensadas em distensão? Surge a fadiga. Tenho tempo de descanso e o cansaço permanece. Estou em estado de fadiga. Propício ao assédio moral (só depois vêm os outros “assédios”…) O alerta está dado. Pare e pense no que é a Verdade na/da sua vida? José Comblin, o teólogo que muitos teimam em não ler, afirma: “A verdade é muito simples(…) É preciso renunciar ao projecto de definir a “verdade”. O que nos é permitido é buscar caminhos que conduzam à verdade ou, pelo menos, a uma aproximação da verdade. Nesses caminhos, todas as religiões e todas as filosofias podem trazer a sua contribuição”.
“Pilatos perguntou a Jesus: “O que é a verdade?” (Jo 18,38). Jesus não respondeu, porque Pilatos não estava interessado em saber o que era a verdade. “Verdade, Pilatos, é estar ao lado dos pobres” – escreveu Emmanuel Mounier. E continua, José Comblin, no opúsculo, “O que é a verdade?” (2005) a desarrumar as cabeças de certezas fúteis: “Aos discípulos, Jesus, sim, diz o que é a verdade: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”(Jo 14,6). Nessa declaração de Jesus, a “verdade” está colocada no meio entre o “caminho” e a “vida”. Caminho, verdade e vida formam uma só realidade, e cada palavra expressa um aspecto dessa realidade única. A verdade é o caminho que leva à vida. Jesus diz que ele é o verdadeiro caminho, o caminho que não engana, mas conduz à verdadeira vida. A verdade aparece no caminho, ela está sendo procurada e essa procura já é vida, entrada na vida. Daí aparece claramente que a verdade não se reduz a doutrinas ou teorias. A “verdade” quer dizer a “realidade”, o que realmente existe e dá a vida. Não estamos na ordem das idéias, mas na ordem da vida real das pessoas. Jesus é quem dá realidade à vida humana. Essa verdade não é de ordem puramente intelectual. A pessoa pode até não conhecer o nome de Jesus, mas, se ela segue o caminho de Jesus, está na verdade”.
Isto é parte daquilo – omissão, visão, verdade -, que não se pode calar mais. Quem tem ouvidos que ouça, assim como, quem tem olhos e sabe ler, possa viver mais comprometido e livre.
