Questões Sociais 1. Os sacrifícios exigidos hoje em dia ao povo português vêm sendo justificados com base em três objectivos: a redução do défice orçamental; a recuperação do crescimento económico; e a permanência do Estado social. Até este momento, e volvidos alguns anos, os resultados têm sido pouco animadores: o défice tarda a baixar; mantém-se a estagnação económica; e ameaça regredir o Estado social.
Não é previsível quando acabará o impasse actual e, mesmo que ele acabe, nada garante que os objectivos sejam alcançados de maneira consistente. Entretanto, parece desumano que os sacrifícios não sejam acompanhados por mudanças qualitativas que reforcem os laços de coesão social.
2. A crise da coesão social é, seguramente, um problema bem mais profundo que o défice orçamental, a estagnação económica e os abalos do Estado social. Aliás, a superação destes três problemas não trará consigo, automaticamente, a coesão; e esta, pelo contrário, poderia ser consolidada na situação actual, contribuindo animicamente para a solução dos outros problemas.
A crise da coesão social patenteia-se hoje, claramente, na profusão de relações de hostilidade e de egoísmo. Tais relações observam-se entre o Estado, por um lado, e os cidadãos, famílias, empresas e instituições, por outro. Observa-se também entre as diferentes classes ou estratos sociais.
O Estado não consegue colocar-se ao lado da sociedade civil, não sabe facilitar-lhe a vida nem cooperar com ela; logicamente, a sociedade civil responde na mesma moeda. A mudança de algumas práticas administrativas e de alguns princípios do nosso ordenamento jurídico seriam suficientes para se criar uma atmosfera de harmonia e cooperação.
Dentro da sociedade civil, judicial e militar, as diferentes classes ou estratos sociais fazem exactamente o contrário do que seria de esperar: os mais poderosos lutam pelas suas posições e aliam-se ao Estado no menosprezo das classes e estratos mais pobres.
Em vez da coesão, optámos pela desagregação, pelo egoísmo e pela hostilidade. Até quando persistiremos neste mórbido suicídio colectivo?
